Liberdade e desenvolvimento

Voz às Escolas

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António Pinto

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Passada mais uma comemoração de Abril e crendo que são conquistas irreversíveis a liberdade e o desenvolvimento económico, convém lembrar que nem todos, pelas mais variadas razões, muitas vezes esquecidas, o viveram com a alegria da libertação. Alguns, como eu, encontravam-se longe do país, prestando serviço militar obrigatório e não conheciam muito bem os contornos da revolução que se ia desenhando.

Aí a incerteza, a angústia e o medo do desconhecido deixavam-nos perplexos, expectantes. Contudo, valeu a pena sentir, mesmo que mais tarde, o cheiro da liberdade. Nesses novos países a anarquia imperava e nem sempre os acontecimentos respeitavam aquela que era a imagem de marca da revolução em Portugal, os cravos como símbolo da paz.

Portugal avançou no desenvolvimento económico, malgrado as sucessivas dificuldades que as crises nos obrigaram a suportar. Porque a memória não deve ser curta, na semana passada, fomos confrontados com realidades ainda muito próximas do que era a nossa até aos primórdios da revolução. O AE D. Sancho recebeu um grupo de professores italianos, romenos, búlgaros e turcos integrados num dos projectos Erasmus +.

Estes programas permitem a troca de experiências ao nível dos modelos de ensino e a partilha de estratégias educativas, cumprindo um objectivo de integração e de cooperação dos povos europeus. Constituiu um momento alto de sã convivência e de conhecimento mútuo, fundamental na construção de uma europa dos cidadãos que se vai desenvolvendo, malgrado os ditames dos eurocratas que decidem e impõem regras que nem sempre cumprem esse objectivo.

É esta sã convivência que permitirá relativizar diferenças e aceitar essa diversidade cultural que, podendo ser fonte de dificuldades, constituirá a sua maior riqueza, assim todos os dirigentes estejam disponíveis para um diálogo efectivo. Os turcos e búlgaros estavam espantados com as condições das nossas escolas e com os modelos de organização. Dizia uma turca que a D. Sancho I era a sua escola de sonho e os búlgaros (oriundos do interior) estavam espantados com a qualidade das escolas e da própria cidade de Famalicão.

Porque cá estamos sempre reclamando e já nem sequer conseguimos imaginar uma realidade diferente tal como também a tínhamos antes de 1974. Aí estão povos da europa lembrando-nos que afinal o 25 de Abril valeu bem a pena e alterou as nossas vidas, permitindo o desenvolvimento económico e social que hoje temos. Dizia uma professora búlgara, que já trabalhou na agricultura em Portugal, que somos ricos, tal a diferença que observou.

Não somos propriamente ricos, temos de pagar tudo isto e, ainda, o desgoverno do sector financeiro (que não é nacionalista), mas estamos muitos passos à frente de outros povos europeus que só depois alcançaram a liberdade e a quem devemos a solidariedade que já recebemos. Ser professor em Portugal ou Itália é bem diferente de o ser na Turquia, Bulgária e Roménia. Lá como cá ser professor não é nada fácil pela multiplicidade de funções que todos se arrogam o direito de lhe atribuir.

Lá como cá é aceitar uma profissão social e economicamente desvalorizada, mas que continuará a ser uma forma de realização pessoal e profissional, um estado de espírito que mistura missão, sonho e utopia. Ser professor é ser agente da liberdade, porque a educação liberta e a ignorância e o obscurantismo potenciam a manipulação e a opressão. Abril mostrou-nos que, apesar de tudo, vale a pena viver em democracia.

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