O saber ocupa lugar

Ensino

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Manuel José Fonseca

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Estávamos em1991 e foi fácil. Ainda no segundo ano da licenciatura, que durava cinco, e já surgiam convites para integrar agências de comunicação e departamentos de marketing.
Era um mercado carente de profissionais com formação superior em comunicação de marketing.

As estrelas da publicidade brilhavam em Lisboa, oscilando entre a ousadia de um Edson Athayde recém-chegado à Young & Rubicam e de um Pedro Bidarra - conhecido, também pelo feitio, como o Dr. House da Publicidade - que assinava, na BBDO, o que de melhor se fazia por cá.
No Norte a comunicação de marketing afirmava a sua profissionalização, onde os projetos nacionais davam luta às multinacionais, disputando contas e protagonismo. O mercado estava vivo, dava muito trabalho e todos nós ganhámos.

De repente estávamos em 2009 e não foi fácil. O desinvestimento em marketing encolheu verbas, empresas e equipas de trabalho. Ao mesmo tempo que mudava o modelo de negócio, assistíamos a uma fragmentação dos públicos, dos meios e das audiências. A linguagem tornou-se híbrida (cívica e comercial), as marcas puxaram pelos pronomes, como o “I” e o” MY”, a cocriação assumiu protagonismo, a criação de conteúdos e a capacidade de propiciar experiências passaram a ser sinónimo de valor acrescentado e a massificação persuasiva deu lugar à segmentação e ao envolvimento. O filtro da (r)evolução premiou a formação e a especialização, deixando o amadorismo dependente do subsídio de desemprego.

Os departamentos de marketing, comunicação e vendas das empresas sempre exigiram resultados. Mas hoje exigem mais. E não pagam para ver se resulta, mas antes pelo que resulta. Assim, a principal solução para o mercado de trabalho reside na qualificação dos trabalhadores, seja por via da educação formal, seja por formação laboral.

Assumindo algum conservadorismo, admito que sob o pretexto de criar um espaço europeu de ensino superior globalmente harmonizado, o Processo de Bolonha gerou algumas ofertas formativas indiferenciadas, que não preparam objetivamente os discentes para o mercado de trabalho. Os números do desemprego jovem assim o confirmam: no passado mês fevereiro, 30% da população ativa, entre os 15 e os 24 anos, estava desempregada (INE).

É por esta e por outras que hoje, em 2016, a formação superior é um imperativo de qualquer currículo. Não me refiro apenas a uma licenciatura de 3 anos. De uma forma geral, independentemente da instituição que a ministra, é quase sempre um primeiro passo com seis semestres que carece de um segundo capítulo: o da especialização. Não é por acaso que muitas entidades empregadoras, nos seus anúncios de recrutamento, solicitam “… licenciatura pré-Bolonha ou mestrado pós-Bolonha…”.

A edição online do Público do passado dia 1 de maio sublinhava que no “…último trimestre do ano passado, 25,3% da população empregada tinha terminado um curso universitário ou no ensino politécnico. É o valor mais elevado de que há registo…”. Não obstante, Portugal continua longe da média europeia em termos de formação superior: 30% contra 38%, na população entre 30 e 34 anos. Esta realidade indicia que não vamos atingir uma das metas 2020 fixadas para a UE: ter 40% da população, nesta faixa etária, com um diploma superior. Adicionalmente, realce-se que dois terços dos jovens que terminam o Ensino Básico não chegam ao Ensino Superior.

A necessidade de formação superior continuada é uma realidade que tanto se adapta a jovens recém-licenciados, como a profissionais que, estando no ativo, necessitam atualizar competências e conhecimentos. As instituições de ensino superior, por seu lado, incentivam a formação contínua com apoios financeiros, horários pós-laborais e políticas de proximidade.

Claro que como coordenador de um mestrado não posso deixar de puxar “a brasa à minha sardinha”, mas no Mestrado em Marketing na ESCE-IPVC tentamos materializar estas intenções porque, para além da transmissão dos conhecimentos imprescindíveis à construção de uma base teórica consistente, é igualmente valorizada a componente prática destinada a reforçar a capacidade de análise e de tomada de decisões por parte dos discentes.

O que falta aos recém-licenciados e profissionais do sector? Muitas vezes força e vontade. Estou profundamente convicto de que vale a pena investir na consolidação dos conhecimentos que consubstanciam o presente e o futuro profissional de quem trabalha ou ambiciona fazê-lo. Ou como diria o Tio Olavo do Edson, “o saber não ocupa lugar…a não ser nas empresas”.

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