Política em Tempos de Cólera

Ideias

autor

Isabel Estrada

contactarnum. de artigos 52

Tenho por regra não me servir dos espaços onde publico opinião para publicitar eventos, mas desta vez, tenho mesmo de abrir uma exceção. Vale a pena.
Hoje e amanhã, decorrem na Universidade do Minho, em Gualtar, na Escola de Economia e Gestão, aquelas que são as primeiras jornadas de Ciência Política da inteira responsabilidade do recém-criado Núcleo de Estudos de Ciência Politica (NECP), que reúne os alunos de licenciatura e de mestrado em Ciência Política. O bom leitor perdoar-me-á a imodéstia, mas o orgulho que sinto nestes alunos é enorme.

É que cada um, do alto esplendor da sua juventude, contradiz o que tantas vezes ouvimos dizer sobre os nossos jovens: que são apáticos, que não se interessam pela política, que perante a frustração descambam no silêncio agressivo ou se entregam à catarse fácil proporcionava pelos desabafos inconsequentes e recorrentemente mal fundamentados das redes sociais.

Não, essa não é uma imagem que faça justiça a todos os jovens, que faça justiça a estes estudantes que ao longo do dia de hoje em particular, se propõem debater porque é urgente perceber e estudar a política. “Política em tempos de cólera”, assim decidiram chamar a estas jornadas, inspirados no célebre livro “Amor em tempos de cólera” do Nobel da Literatura Gabriel Garcia Márquez.

Na raiz do título anima-os tanto o amor que sentem pela vida, como o desejo de melhor compreender o que aos seus olhos surge como um tempo de corrosão, um tempo perigoso para a Europa em que nasceram e sobre a qual lhes falávamos como sendo um extraordinário projeto de paz e de prosperidade de povos solidários, no qual valia apena acreditar e pelo qual valia a pena lutar.

Sobre as pessoas da minha geração, dizia-se que tínhamos nascido no pós-vinte e cinco de abril, e esse “pós-abril” conferia-nos uma áurea de juventude que quase parecia eterna. Hoje, já não somos tão jovens assim, e estes jovens de que agora falo nasceram em outros “pós”. Muitos dos meus alunos já não são sequer “pós-queda do Muro de Berlim”, ou pós-Tiananmen, como acontecia há alguns anos, a menos que tenham à volta de 27 anos e sejam alunos de mestrado ou de doutoramento.

Os mais novos são “pós-Expo 98”, ou seja, nasceram num tempo de esperança e de prosperidade sobre o qual mal tomaram conhecimento, tão tenra era ainda a sua infância, para logo entrarem numa nova era: a era dos medos xenófobos, dos discursos securitários, do crescendo da força ultra-nacionalista, que gradualmente se haveria de inaugurar com o 11 de Setembro; a era da recessão económica, do rebentar das bolhas especulativas da alta finança internacional, da crise das dívidas soberanas na Europa; a era do ressurgimento de um vocabulário que se julgava desmantelado, mas que agora traduzia a realidade da vida de muitas famílias, incluindo as famílias de muitos destes jovens: austeridade, desigualdade, emigração…

Estes são os jovens de hoje, os mesmos que se inquietam perante a desunião de vontades políticas na Europa face à crise humanitária dos refugiados, que se interrogam sobre a entrada nos parlamentos nacionais de partidos de extrema-direita e de extrema-esquerda, que procuram na análise da História as pistas tantas vezes ignoradas sobre como se processa a insidiosa ascensão das retóricas populistas; que buscam compreender o modo como o véu do fundamentalismo confessional ajuda a distorcer a real perceção sobre as lógicas mercantis e de poder que orientam a criminalidade global organizada.

Estes são os jovens a quem a Europa está a deixar uma pesadíssima herança (económica, política e social). No entanto, ao invés de cederem ao desespero, à frustração, às respostas simplistas que caracterizam a capacidade de fascínio dos populismos, estes jovens, alunos de Ciência Política, buscam na Ciência e na salutar confrontação de ideias, construir um novo agir. Parafraseando James Carville, de quem resultou a expressão recorrente “It’s the Economy, stupid” [é a economia, estúpido], estes jovens alunos demonstram hoje, na Universidade do Minho, que na verdade, “It´s the Politics, stupid”.

De facto, na ignorância atroz que as nossas sociedades alegremente cultivam sobre os fenómenos políticos, na assunção balofa de que qualquer um sabe analisar, discutir e explicar os fenómenos políticos, e de que estes quase sempre se resumem ora a explicações economicistas ora, pior, a confrontos civilizacionais, radica parte dos bloqueios de acção que tolhem e ameaçam a qualidade dos nossos regimes democráticos.

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Ideias

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia