Ler Cultura(s)

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Ermanno Aparo

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Hans Georg Gadamer, filósofo e um dos maiores representantes da disciplina da hermenêutica filosófica do século XX, afirmava que “a cultura é o único bem da humanidade que, partilhado entre todos, em vez de diminuir torna-se maior”.

Ultimamente, parece muito difícil falar de cultura, ou melhor aparece fácil que todos possam falar de cultura, definindo-a enquanto competência intrínseca, como se a cultura fosse algo que pudesse ser possuído em exclusivo, como um valor material - um relógio, um telemóvel ou um carro. Porém, a cultura, assim como nos refere a etimologia da palavra, é algo que deve ser cultivado e desenvolvido, por isso partilhado entre todos. Frequentemente, a cultura não é compreendida como algo que une as pessoas, mas que acaba por ser encarada como algo que distancia.

Afortunadamente, não é sempre assim. Se de um lado temos os “ismos” que parecem conduzir-nos para “novas cruzadas”, do outro lado temos sinais que nos levam a pensar que, na aldeia global, a cultura está a ser esquecida, ou pior, deixada de lado para dar lugar ao fator económico/lucrativo.

A análise à cultura tem, frequentemente, sofrido de um equívoco que determina que se trata de algo que necessita de dinheiro mas, que não constitui um investimento. Trata-se de uma reflexão que, embora seja presente de forma mais ou menos declarada em diferentes lugares do velho continente, carece de validade ou até de veracidade.

O que aparece mais irónico nisto tudo é que, hoje, o papel da indústria cultural se manifesta, quer como um agente importante e de transformação da sociedade, quer como um catalisador económico, revelando-se como um dos poucos âmbitos da nossa modernidade que está em crescimento. Segundo os dados fornecidos pela Ernst & Young, até na economia Chinesa a indústria cultural tem revelado um crescimento em média mais rápido do que outros sectores da economia.

De qualquer forma, a cultura deve ser encarada como fruto de um processo de sedimentação, com camadas de conhecimento que se sobrepõem para alcançar uma morfologia própria, abrigando e alimentando um povo.
Hoje, porém, a cultura cresce, prospera e acompanha o desenvolvimento de uma sociedade que se apresenta como multi-étnica, multi-cultural, multi-plataforma, multi-tasking. A sociedade em que vivemos é claramente diferente daquela que viveram os nossos pais ou os nossos avós. Da experiência e vivência com eles guardámos certos valores do passado, alguns foram perdidos, para acrescentarmos novos valores, enquanto que outros, ainda, foram modificados.

Hoje, as cidades tornam-se uma espécie de melting pot, segundo a visão optimista que nos ofereceu Israel Zangwill para traçar o fenómeno que determina a mestiçagem de diferentes fatores culturais. Trata-se de um termo que nasce, em particular, na e para a sociedade Norte Americana mas, que hoje pode ser aplicado a toda a aldeia global. Crescem os fenómenos de eventos multi-culturais, que retratam uma sociedade transgeracional capaz de passar dos Supertramp para os Garbage, de José Saramago para Haruki Murakami, de Auguste Rodin para Vanessa Beecroft.

Neste sentido, também em Portugal começam a aparecer situações episódicas de “transculturalidade difusa” que pretendem juntar públicos, partilhar experiências, que nascem de um conhecimento amplificado a diferentes bandas e propagado por diversos canais. Sem bandeiras, sem nenhum enquadramento político ou proveniente de grupo social, estes momentos culturais aparecem nas cidades e, pela boa paz de quem continua a achar que a cultura não faz economia, determinam novos fluxos e novos públicos nos espaços urbanos, que vivem com diferente intensidade a urbe, transmitindo um novo espírito do lugar e para o lugar.

A Viana de hoje não é só aquela dos trajes e da maravilhosa vista de Santa Luzia. A Viana de hoje é, também, aquela de uma modernidade que se reflecte nos espaços do INAUGURO que, desde 2011, de seis em seis semanas e sempre ao sábado de tarde, abre as portas para expor e difundir a cultura artística e de projeto que, muitas vezes, começa a sua viagem de Viana do Castelo para o mundo inteiro. Em Viana mantêm viva a sua actividade outros clusters culturais como, por exemplo, o Centro Dramático de Viana - Teatro do Noroeste que, para além de encher as salas teatrais com uma enorme variedade de espectáculos, produz uma intensa actividade no meio social e urbano. Outro exemplo é o “fenómeno” da Academia/Escola Profissional de Música que consegue incutir a cultura musical a alunos de todas as idades, prolongando-a às suas famílias, propondo momentos importantes de cultura musical, que vai de Joly Braga Santos a Ravel, passando por Dvořák e por Arturo Márquez.

Hoje, o Design precisa de viver este clima, porque não há projeto sem cultura, porque é sobre uma sólida base cultural que podemos erigir um produto ou um serviço. Qualquer projetista que pretende desenvolver um projeto inovador deve ter a capacidade de ser criativo e, para isso, deve saber lidar com a cultura que o circunda, esforçando-se para a compreender, deixando-a entrar num processo de envolvimento sensorial e de conhecimento, no sentido que só assim aquele projeto poderá pertencer à cultura a qual se refere.

No dia 08 de Julho, Viana assistirá a um projeto que junta o INAUGURO, o Centro Dramático de Viana, a Academia/Escola Profissional de Música e o Mestrado em Design Integrado do Politécnico de Viana do Castelo. A estes quatro importantes agentes culturais da cidade se acrescenta uma indústria, designadamente, a Cerâmica Artística do Vale do Neiva. O objetivo é poder demonstrar que o Design do Alto Minho pode, por meio dos clusters culturais, criar um caminho criativo que pode ser útil para qualificar lugares, espaços ou objectos cerâmicos. Venham perder-se como um dia a Alice se perdeu! Venham perder-se como a ALICE NA VIANA DAS MARAVILHAS para descobrirem que, aqui, a cultura continua a ser escrita de Viana e lida para o mundo.

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