Para uma Tecnoética prática

Ensino

autor

João Ribeiro Mendes

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Imaginei para este verão, caro leitor, umas férias diferentes, em jejum tecnológico e retornando a alguns prazeres de vida simples. Planeei um agosto de banhos de mar, caminhadas pelo pinhal, passeios de bicicleta pelo campo, refeições mais demoradas com a família e, claro, sestas; sem telemóveis, internet, televisão; liberto de Tecnologia, em suma.

Mas logo no primeiro dia percebi que isso iria ser muito difícil de conseguir, ao ter sido acordado por um irritante ruído parecido com o de um zangão que, depressa me dei conta, era causado por um drone, daqueles que se compram por poucas centenas de euros nas grandes superfícies comerciais. Assim que abri a janela, pude observá-lo primeiro a levitar sobre o terraço da casa e logo de seguida a sobrevoá-la. Horas mais tarde reencontrei-o quando se interpôs entre mim, deitado sobre a areia da praia, e o sol provocando-me um eclipse no bronzeado. E depois, onde quer que fosse, um qualquer outro gadget tecnológico - rádio, tablet, hoverboard… - indesejável aparecia a atazanar.

Concluí que não podemos escapar hoje à Tecnologia, que não podemos ter férias dela, dada a sua ubíqua imposição. Mas ela também me fez pensar e ficar convencido acerca da necessidade de uma Tecnoética Prática.

A expressão “Tecnoética” foi empregue pela primeira vez em 1977 por Mario Bunge, não para referir uma eventual tecnicização ou profissionalização da Ética, antes uma necessidade da esfera de atividade da técnica ou, melhor, da tecnologia instanciar a partir de dentro de si própria uma reflexão sobre as implicações morais da conceção, produção e uso dos artefactos tecnológicos. Esse filósofo da ciência argentino reivindicou nessa altura que, dado o amplo desinteresse dos filósofos pelo assunto, deveriam ser os próprios tecnólogos a desenvolvê-la.

Na última década e meia, todavia, diversos filósofos profissionais, reconhecendo a importância do “fenómeno tecnológico”, isto é, do modo como a Tecnologia invade e molda todos os domínios do mundo da vida, investiram no seu desenvolvimento como um ramo da Ética aplicada. A Tecnoética que conceberam, todavia, é sobretudo teórica e académica, consistindo basicamente num exame de questões morais suscitadas por tecnologias particulares à luz de conceções normativas gerais bem estabelecidas permanecendo afastada da práxis, onde são feitas (para) funcionar, e daqueles que quotidianamente as manuseiam. Por isso temos de pensar numa diferente Tecnoética.

Precisamos, julgo, de uma “Tecnoética prática”, na linha daquela que o filósofo francês Michel Puech tem vindo a explorar e que optou por designar “Tecnoética vulgar” (Ordinary Technoethics). Ela deverá partir e centrar-se no estudo das intuições pré-reflexivas morais sobre as tecnologias de trazer por casa, na vida diária, dos seus usuários mais comuns e posteriormente ajudá-los a tornarem-se mais eticamente habilitados a lidar com elas.

Tomando o exemplo do referido drone de recreio (não de guerra), um quadricoptero Phantom 1 (com autonomia de voo de 15 minutos, controlável até 1000 metros de distância, equipado com uma GoPro 4K), seria importante indagar se o respetivo dono tem noção dos problemas de segurança, violação de privacidade e perturbação da tranquilidade implicados num comportamento só em aparência lúdico, como reagiria se outros lhe fizessem o mesmo, se previu algum modo de harmonizar diferentes interesses, nomeadamente o seu de se divertir e o de outros de se manterem em sossego. Enfim, conto voltar a isto num próximo artigo.

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