A relevância da prática desportiva regular no rendimento escolar

Ensino

autor

Luís Paulo Rodrigues

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Todas as espécies animais brincam, mas a nossa é a única que ao longo do seu percurso para se tornar a dominante sobre a Terra alongou o tempo de infância, o tempo de brincadeira, o tempo de movimento. Esta parece ter sido uma característica decisiva na nossa evolução já que todos reconhecemos a importância da infância para o desenvolvimento dos futuros adultos. Ao mesmo tempo não temos dúvidas em reconhecer a extraordinária relevância do movimento nas últimas décadas da nossa vida, bem estabelecidas no provérbio popular “parar é morrer”.

Pois bem, o desporto não é mais que é a mimetização social do espaço, da oportunidade e da necessidade de brincar, de dar asas ao movimento, de competir pela superação, que levou o Homem a evoluir até aos nossos dias. Então porque teimamos, porque teima a sociedade no seu todo, em não reconhecer as ligações entre o movimento (o desporto), e o desenvolvimento pleno da pessoa humana? O que leva a sociedade e as famílias a ignorar os seus efeitos benéficos generalizados? Porque não temos dúvidas da sua relevância nos primeiros e nos últimos tempos de vida, mas o remetemos para um papel secundário durante quase todo o resto do tempo?

Provavelmente a resposta será porque ainda não nos libertamos completamente do pensamento medieval que separa corpo e mente! Porque vivemos tempos de intenso predomínio da importância da cognição! Porque famílias, escolas e sistemas educativos estão obcecados com o desempenho e o sucesso escolar das crianças e jovens! Porque erradamente fomos levados a acreditar que movimento e conhecimento são duas entidades distintas, separadas, e irreconciliáveis (como se ambas não tivessem origem e fim na mesma estrutura que nos comanda e nos diferencia dos outros animais: o cérebro humano).

Estas premissas levam as famílias a reconhecerem e louvarem o papel do desporto na construção da saúde dos seus filhos, mas a separarem claramente os seus efeitos dos esperados nos tempos de estudo e portanto serão sempre os tempos desportivos a serem sacrificados se menor sucesso escolar acontecer. Além disso, e na reminiscência da nossa tradição católica medieval alimentada durante décadas de ditadura, nada do que dá prazer pode ser realmente sério ou importante!?

Inúmera investigação tem sido conduzida sobre os efeitos do movimento no cérebro.
A necessidade de brincar ativamente que as crianças demonstram (e os adultos reprimem) está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento das redes neuronais, sua plasticidade, capacidade e velocidade de resposta. Vezes sem conta tem sido repetida a experiência original que demonstrou que animais criados em ambientes enriquecidos com atividades motoras criaram mais 25% de ligações sinápticas no seu córtex cerebral.

O recurso às modernas técnicas de imagens neurológicas tem permitido mostrar que regiões nervosas importantes para o desempenho motor e cognitivo, como o da região dorsolateral do córtex pré-frontal e o cerebelo, possuem ativações comuns, beneficiando assim mutuamente deste dois domínios de atividades. As evidências científicas são avassaladoras na prova de que o exercício físico melhora processos cognitivos importantes como a planificação, programação, inibição e a memória; e promove o equilíbrio emocional, a autonomia e responsabilidade, a auto-organização, o auto-controlo e o auto-conceito.

Mais importante ainda, vários estudos em que crianças em idade escolar foram submetidas a um aumento (ou inclusão) dos programas de atividades motoras e desportivas (substituindo tempos de aprendizagens mais teóricas) nas suas escolas, demonstraram a eficácia desta substituição através da melhoria nos testes de Matemática e de Línguas. Ou seja, apesar da diminuição dos tempos que as famílias e a sociedade entendem como prioritários para o sucesso educativo, as crianças que usaram esse tempo para a prática do exercício físico obtiveram mais sucesso académico.

Estes resultados, vistos vezes e vezes sem conta, parecem advogar contra a prática das famílias que usualmente recorrem ao aumento das horas de aprendizagem teóricas (através, por exemplo de explicações), cortando ou impedindo o acesso às práticas desportivas pelas suas crianças.
No seu conjunto as conclusões são de extraordinária relevância para desenvolvimento integral das nossas crianças e jovens. Percebemos hoje bem que, crianças com mais êxito nas tarefas motoras, que evidenciam melhor robustez musculo-atlética, e que passam mais tempo em atividades de movimento, apresentam um sucesso académico melhorado, ou no limite, igual ao das outras crianças. Como as vantagens da prática desportiva são inequívocas para um desenvolvimento saudável, podemos confirmar que uma mente sã se pode fazer acompanhar idealmente de um corpo são.

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