Escola, Família e Resultados Escolares

Voz às Escolas

autor

António Pereira

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Há sensivelmente uma semana, a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) tornou público os resultados de um estudo sobre a relação entre o desempenho escolar dos alunos e o meio socioeconómico dos seus agregados familiares. Este estudo, relativo ao 2.º ciclo, surge após um primeiro, publicado em fevereiro, que se debruçava sobre o 3º ciclo, os dois sob o título “Desigualdades Socioeconómicas e Resultados Escolares” e utiliza duas variáveis de contexto como indicadores do meio socioeconómico dos alunos: o nível de habilitação escolar da mãe do aluno, por um lado, e o escalão do apoio da Ação Social Escolar (ASE) recebido pelo aluno, por outro.

Os resultados destes dois estudos corroboram, no essencial, as conclusões de outros realizados por organismos nacionais e internacionais sobre a diferença de desempenho escolar dos alunos de estratos sociais carenciados e os de estratos mais favorecidos: o nível socioeconó- mico dos agregados familiares é um preditor do sucesso escolar, na medida em que os alunos oriundos de famílias de baixos rendimentos apresentam taxas de sucesso mais baixas e os alunos cujas mães possuem habilitações académicas mais baixas, apresentam piores resultados que os alunos cujas progenitoras têm mais estudos.

Para elucidar estas afirmações, refiram-se apenas alguns dados estatísticos publicados pela DGEEC. No que se refere ao nível habilitacional da mãe (o nível de habilitação escolar apresenta resultados genericamente semelhantes), entre os alunos cujas mães têm uma habilitação equivalente a licenciatura ou bacharelato, a percentagem de percursos de sucesso (classificação positiva em ambas as provas nacionais - Português e Matemática de 6º e 9º ano - e um percurso sem retenções nos 5º, 7.º e 8.º anos) é no 2.º ciclo de 80% e no 3º de 71%, ao passo que entre os alunos cujas mães têm habilitação escolar baixa, equivalente ao 4.º ano completo, a mesma percentagem de percursos de sucesso reduz-se para apenas 26% no 2º e 19% no 3º ciclo.

Relativamente à segunda variável utilizada no estudo, (por nível de apoio da Ação Social Escolar) constatou-se que entre os alunos que não recebem qualquer apoio ASE, a percentagem de percursos de sucesso é de 63%. e 49%, respetivamente no 2.º e 3º ciclo, ao passo que, entre os alunos oriundos de agregados familiares com condições económicas mais desfavorecidas e, portanto, com maior apoio ASE a mesma percentagem de percursos de sucesso é apenas de 27% e 20% nos respetivos ciclos de ensino.

Se nos detivéssemos apenas nestes dados globais, referentes ao país, poder-se-ia pensar que a condição socioeconómica do agregado familiar condenaria, à partida, os alunos a percursos de sucesso ou insucesso, sendo sinónimo do fracasso da escola pública que tem como uma das funções “nivelar as oportunidades entre os alunos de diversas origens”. Felizmente não é assim.

Diz-se no estudo que, “apesar de estas disparidades muito acentuadas mostrarem que as condições socioeconómicas das famílias têm um impacto elevado nos resultados escolares dos alunos, um impacto porventura maior do que o desejável, ao mesmo tempo é necessário salientar que as condições socioeconómicas não equivalem a um destino traçado pois existem outras influências e fatores importantes em jogo”. Prova-o o facto de alunos com nível socioeconómico semelhante, matriculados em escolas diferentes, ou oriundos de diferentes regiões do país, obterem resultados escolares muito distintos.

É o caso de Braga em que, apesar dos indicadores socioeconómicos desfavoráveis, os alunos apresentam desempenhos superiores à média nacional. De facto, os alunos do distrito de Braga, apesar do nível de escolaridade das mães ser dos mais baixos do país, têm aproveitamento escolar, nos dois ciclos, superiores aos alunos residentes em distritos cujas mães completaram o 12.º ano. Os resultados são os mesmos se tomarmos o indicador apoio da ASE: os distritos onde o nível económico dos agregados familiares é mais baixo são os distritos onde a taxa de percursos de sucesso é relativamente alta face à média do país. E novamente Braga contraria os números.

Estando entre os distritos com maior número de alunos carenciados (52% à data do estudo), apresenta uma percentagem de alunos com percursos de sucesso superiores à média continental.
As escolas, as famílias e as instituições de Braga parecerem assim estar a conseguir inverter a tendência para o insucesso escolar dos alunos vindos de famílias desfavorecidas e com menos qualificações, rompendo, ainda que muito longe do desejável, este ‘círculo vicioso’ que aparentemente determina a vida escolar e reproduz as desigualdades sociais. Mas os dados da escolarização das famílias e a sua condição socioeconómica põem a descoberto um longo percurso a fazer pelas escolas, instituições e famílias, na promoção do bem-estar e da escolarização da população adulta.

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