Design e (é) pó de arroz

Ensino

autor

Ermanno Aparo

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À primeira vista, relacionar o Design com o Make-up poderá parecer absolutamente desadequado, porém como docente de Design aceito a provocação Design=Cosmética para tratar esta análise comparativa no campo da dialética. A eventual aproximação do Design ao âmbito da cosmética, que o sociólogo alemão René Konig definiu como “algo de muito antigo, quase quanto a humanidade”, deixa-me quer perplexo, quer curioso. Neste sentido, decidi utilizar como metáfora o pó de arroz.

Em Portugal o “pó de arroz” é também o título de uma famosa canção de Carlos Paião. Se acompanharmos a letra desta canção “Será beleza apenas, só Uma corzinha com pó de arroz (...)” poderemos, com alguma cautela, tentar imaginar o Design como pó de arroz. Embora, por um lado, os defensores mais tradicionalistas da disciplina se oponham a esta afirmação e, por outro lado, os discípulos integralistas do “belo/útil” torçam o nariz a tal ousadia, invocando-a de expressão sacrílega, a ideia de comparar o Design ao pó de arroz não é nada original. Pelo contrário!

Já o Professor do Politécnico de Milão Francesco Trabucco a utilizou para definir o papel de um Design, às vezes, só de aparência e pouco substancial, com uma intervenção de fachada, ou seja, uma maquiagem. Sempre recorrendo à letra da canção de Carlos Paião, “É como enfeitar um embrulho - Arroz com gorgulho talvez”, assumimos que, afinal, o Design é utilizado, não só para enaltecer a ideia de uma intervenção no packaging ou na comunicação de um produto, mas também para descrever uma intervenção, apenas, de aparência quando, por exemplo, nos chamam, apenas, para dizer “temos muiiito cuidado com o Design!” e por isso vos chamamos, para dar uma opinião.

Ou ainda, quando nos propõem um evento relacionado, “vagamente com criatividade”, quando nos convidam para “estar presentes” num seminário sobre “Design thinking” facultado por um fulano licenciado em Economia, em Marketing, ou em Direito que, em princípio, sabe tanto de Design como eu sei de Engenharia Nuclear. Sim, temos que ser sinceros! Nenhuma disciplina é tão democrática como o Design! Numa simples conversa de café transformamos mais rapidamente qualquer pessoa num “expert de café” ao falar em Design, do que o football faz entre os treinadores de bancada num campo de periferia.

Ao longo dos anos, a palavra Design tem-se tornado um adjetivo que tem sido alargado a diferentes contextos e âmbitos, muitas vezes, de forma livre e arbitrária. Como afirmava um outro grande teórico do Design, Gui Bonsiepe, hoje já não temos cabeleireiros ou barbeiros, mas salões de Designers para cabelos e assim, talvez poderia ser justificada a nossa teoria do Design do pó de arroz. E pouco importa que tenhamos um ou nenhum Designer na nossa empresa, mas o que importa é que temos “produtos com Design, ainda melhor quando este é um Design à medida!” E se tens um problema com a tua casa, não te preocupes!

Agora, o Design é tão democrático que a loja do Zé da Esquina tem Design para isso, embora não tenha um Designer, mas isso é só um pormenor! Hoje, o número de cursos em Design e, consequentemente, de Licenciados nesta área tem crescido exponencialmente. Apesar desta situação ter explodido de forma quase incontrolável, a profissão do Designer permanece como um ofício desconhecido para muitos. Acerca deste facto, em 1995 o Professor Daciano da Costa escrevia no Semanário Económico um artigo intitulado “A Arquitetura, o Design e a barbearia do Sr. Gaudêncio”.

Nesse artigo, o Professor Daciano evidenciava como, já no final do século passado, havia alguma dificuldade em entender o papel desta disciplina. É curioso verificar que o European Union Intellectual Property Office - EUIPO, o Gabinete Europeu das Patentes, realizou um estudo acerca dos benefícios económicos da Propriedade Industrial na economia europeia, destacando, entre os fatores relevantes, o Design que, só em 2013, contribuiu para o comércio com o estrangeiro com mais de 243 bilhões de euros, criando cerca do 18% de PIB e cerca de 38,7 milhões de postos de trabalho. Este estudo, assim como os numerosos exemplos de produtos e/ou serviços de sucesso que podemos encontrar espalhados pelo mundo, ajudam-nos a entender que, pensar em Design e pó de arroz, provavelmente pode significar que o Design é uma base indispensável. Porém, para isso acontecer, é necessário competência na utilização dos ingredientes, doseando-os com prudência e sem exagero, para podermos dizer, uma vez mais, a letra da canção que, “Alindada vens dar no arroz”.

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