“A escola também é deles”

Voz às Escolas

autor

João Andrade

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Uma das dimensões primordiais assumidas pelo estado-nação moderno é a educação. É no sistema educativo que o indivíduo realiza, na maioria das vezes, os primeiros confrontos entre as suas dimensões pessoal e coletiva. Ao longo de doze anos, pelo menos, a criança, depois o jovem e, finalmente, o adulto, devem preparar-se para assumir um papel informado, crítico e, consequentemente, ativo na sociedade.

Não queremos que a nossa Escola se torne um veículo, como referem Almerindo Janela Afonso e Emílio Ramos, na linha de Boaventura de Sousa Santos, para a construção de uma cidadania ténue, restrita a lógica do Estado-nação, de indivíduos tutelados e predominantemente vinculados a certos interesses, valores e ideologias.

Missão difícil, em dias de muita informação e desinformação, em que facilmente se constroem argumentos, aparentemente fundamentados, na defesa de tudo e de coisa nenhuma. Acrescente-se a isso a facilidade com que se convocam individualismo e egoísmos, em detrimento de outros valores derivados do humanismo. Alguns fenómenos democráticos recentes - só para os menos atentos, inesperados -, na arena internacional, parecem dar força a esta convicção.

Assim, a escola que entendemos servir a modernidade deverá garantir, na ação, a centralidade da condição humana, incorporando e assegurando o direito à diferença, promovendo percursos de progressiva autonomia e liberdade e de construção de uma futura cidadania ativa, consciente, plena e responsável.
Muito importante nesta construção é o fomento da participação dos alunos nas decisões coletivas, particularmente as que os afetam diretamente.

Quer seja pela aprendizagem, em ação, da operacionalização dos processos democráticos, bem como das suas limitações, virtualidades e consequências, como pela consequente possibilidade de intervenção formal na vida da escola, os processos eleitorais e de representatividade de alunos são, claramente, fundamentais aos desígnios que assumimos.

A forma como nos últimos anos se têm realizado, quer os processos eleitorais para os órgãos estudantis nas duas maiores Escolas do nosso Agrupamento, quer a forma como depois as associações de estudantes intervêm, de forma extremamente responsável e construtiva na vida da respetiva escola, com base em ideias concretas e valores, faz-nos ter alguma esperança de que o nosso futuro coletivo possa estar bem entregue.

Na senda da construção dessa progressiva autonomia, este ano procuramos que a intervenção dos outros órgãos da escola, nomeadamente da direção, se reduzisse ao mínimo indispensável, no âmbito dos procedimentos eleitorais. Assim, coube aos alunos a gestão do calendário eleitoral ou a decisão das diatribes processuais, espaços ou recursos a utilizar no processo. A única tónica, por parte das restantes estruturas da escola, foi a explícita entrega da responsabilidade, como inerente positiva ao processo.

Este, para muitos, primeiro contacto com as dinâmicas do associativismo, inclusive as negativas que possam ocorrer, constitui uma preparação fundamental de uma diversidade competências futuras. É muito importante que isto ocorra num momento em que os ideais ainda imperem e não um eventual cinismo e utilitarismo que, tantas vezes, a vida adulta acaba por incorporar.
Está agora aberto, também, o procedimento eleitoral para a eleição dos representantes dos alunos e pais no Conselho Geral, o qual, indubitavelmente, se pautará exatamente, sabemos, pelos mesmos moldes.

Estes são alguns dos trilhos que entendemos necessário percorrer numa educação que tenha como fim último a defesa da dignidade humana e a consequente capacidade de defesa de direitos e assunção de deveres.

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