As Eleições Americanas

Ideias

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J.A. Oliveira Rocha

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Eduardo Lourenço afirmou em entrevista à TSF que a vitória de Trump é o maior acontecimento político dos últimos 50 anos, pelo que significa e pela influência que os Estados Unidos têm no mundo. O eleitorado de muitos países europeus pode dar o seu voto a quem corporize a sua insatisfação fruto da globalização, desindustrialização e crise financeira.
Se olharmos para o mapa dos Estados Unidos, verificamos que Donald Trump ganhou nos estados do deep south, herdeiros da confederação, tradicionalmente conservadores; ganhou nos estados predominantemente agrícolas do centro da América; e ganhou mesmo em grande parte dos estados dos grandes lagos, atingidos pela onda de desemprego e pela desindustrialização, o rust belt.
Tudo isto teria parecido normal se Trump fosse um homem do sistema, enquadrado pelo partido republicano. Mas não é assim. Trump é um outsider, um aventureiro, um racista, um risco coletivo.
Qual, porém, o significado profundo da vitória de Trump?
O sistema político americano corporizado na Constituição foi contruído por Hamilton, Madison e Jay, como forma de evitar a tirania, o mesmo é dizer o aventureirismo. Daí que fosse adotado um sistema de cheques e balanças, de modo que nenhum poder político pudesse sobrepor-se ao outro; legislativo, executivo e judicial controlam-se mutuamente. Não existe, como na Europa a primazia de um sobre o outro. Por outo lado, o acesso à nomeação presidencial passa por um conjunto de fases , obriga à socialização em valores que era suposto impedir a eleição de um aventureiro e anti sistema. Tudo foi trabalhado ao longo de mais de 200 anos, sendo mínimas as diferenças entre democratas e republicanos. Ora Trump rompe com estes equilíbrios, tornando-se imprevisível e um risco mundial.
Em segundo lugar, a vitória de Trump signlfica a derrota do modelo político americano, de democracia pluralista, um governo de grupos de interesses. Dahl, em trabalho clássico, A Preface to Democratic Theory, apelida este sistema de democracia poliárquica, em que as políticas são o resultado de negociação e procura de consensos entre grupos de interesses que lutam na arena política. Daí a importância dos lobbies no sistema político americano. Ao dirigir-se aos desempregados, aos marginalizados do sonho americano, Trump dinamitou o sistema de funcionamento e de valores políticos ameri- canos. Os comentadores políticos chamam a isto de populismo.
Em terceiro lugar, o marketing eleitoral tradicional tem por objetivo a venda aos eleitores de um determinado produto, isto é do programa eleitoral. Foi o que fez HiIlary Clinton e é o que se costuma fazer no ocidente democrático. E se esse programa vai ou não ser implementado, é outra questão que os eleitores julgarão nas eleições seguintes. O staff de Trum entendeu que não existe um único mercado eleitoral, mas sim que existem vários mercados de eleitores que veiculam interesses diferentes, nem sempre coincidentes e, por vezes, contraditórios. Trump estrutura um discurso para cada um destes grupos de eleitores, acontecendo mesmo que são muitas vezes contraditórios, como acentuaram os analistas. Mas quem está desesperado não quer saber das contradições. Trump é o salvador.
O mais explosivo é que Trump aponta uma explicação comum: a imigração, a globalização e o comércio livre.
O que virá a seguir? É uma incógnita. Mas este discurso só tem paralelo com o de Hitler dos anos 30 e que possibilitou a sua ascensão ao poder na Alemanha. Claro que o sistema político americano tem salvaguardas e formas de controlo que as democracias ocidentais não têm, estando mais ameaçadas pelo populismo e aventureirismo.
Finalmente não nos podemos esquecer que o Senado e Congresso são controlados pelos republicanos, com muitos elementos da direita radical. Além disso, o Supremo Tribunal será brevemente constituído por juízes conservadores que poderão fazer regredir as conquistas dos direitos humanos.
Em resumo, o sistema político americano foi estilhaçado e perdeu a sua previsibilidade e o que vem a seguir é , em grande medida, uma incógnita.
Será que Hillary Clinton foi uma escolha errada do campo democrático, ou era inevitável, depois da crise de 2007/8 e esta ainda não foi ultrapassada.

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