“Revolução?”

Voz às Escolas

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João Andrade

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Recentemente, em colunas de opinião, encontros, debates, artigos de jornais e até em apontamentos nas redes socias, tem retomado a atualidade um debate já antigo: a adequação, ou não, do nosso sistema educativo à realidade atual.
E este é, efetivamente, um debate com sentido. A realidade atual, se não socialmente, pelo menos profissionalmente, sofreu uma profunda transformação. O primeiro paradigma, dos ensinamentos do mestre, que na sua oficina passava o saber para o seu aprendiz, que por sua vez o transferia, imutável, à geração seguinte, morre com a revolução industrial.

O paradigma seguinte, do apendido, na oficina ou na escola, durar, pelo menos, o tempo de uma vida, também foi, pela evolução tecnológica e pela globalização, radicalmente tornado obsoleto. Hoje em dia, muitas vezes no espaço de uma década, ou ainda menos, um inteiro setor de atividade pode tornar-se completamente inútil, pela extinção das suas viabilidades comercial ou tecnológica. Com a imensa gravidade de nele estarem penduradas a sobrevivência, não só de inúmeras famílias, mas também de regiões ou até de países.

Este contexto exige a capacidade de construir respostas, obrigatoriamente rápidas e efetivas, não só das empresas, mas também das regiões e nações, por estar em causa, como referido, a sua própria viabilidade.
E cabendo à escola a preparação da força, quer de empresários, quer de colaboradores, que garanta essa capacidade de adequação e resposta, surge a pertinente questão se a mesma, mantendo, mais ou menos imutável, a mesma estrutura há mais de um século, estará, como necessariamente obrigatório, à altura do desafio.

Conforme inúmeros estudos e inquéritos demonstram, hoje em dia para o sucesso profissional contam muito mais as denominadas competências denominadas transversais (tais como a proatividade, as capacidades de relacionamento, trabalho em equipa, organização, planeamento, autoaprendizagem e resistência ao stress, etc.) do que um conjunto de saberes técnicos e práticas que a mutabilidade atrás referida pode rapidamente tornar inúteis.

Esta dúvida sobre a capacidade de resposta do, já antigo, modelo de organização do processo educativo nas nossas escolas é aumentada por outra significativa realidade. Quando o modelo foi concebido, a escola não era para todos e muito menos para uma escolaridade mínima de doze anos. Inicialmente, a escola era somente para alguns, privilegiados, que a ela conseguiam aceder. E para os quais, quer a realizassem com maior ou menor sucesso, a mesma era quase sempre positivamente consequente.

O atual percurso educativo obrigatório, dividido em três ciclos e um nível (1.º, 2.º e 3.º secundário) e a respetiva duração atual de cada um, é pertinente? A divisão, a partir do 2.º ciclo, em disciplinas, a sua atual especificação e respetiva duração, fazem sentido? A organização da sala de aula com um professor e quadro à frente de filas de carteiras com alunos são a melhor forma de transmissão do saber e preparação dos nossos jovens para a vida futura? Existe neste percurso espaço para, por exemplo, a aprendizagem efetiva do trabalho em projetos?

Numa reunião recente com as direções de escolas da região norte, realizada no passado dia 24 de novembro, em Gondomar, o Secretario de Estado da Educação, Dr. João Costa, referiu que esta preocupação da referida adequação do nosso sistema educativo está também em forte questão pela tutela, sendo atualmente alvo de reflexão em diversos grupos de trabalho. Assim sendo, poderão ocorrer, ainda no atual quadro governativo, propostas de mudanças significativas.

Além de entendermos essas mudanças são, não só, desejáveis como, mais cedo ou mais tarde - nem que seja por mimetismo de outras lá fora - incontornáveis, obviamente entendemos que as mesmas deveriam ser alvo de um consenso alargado na sociedade portuguesa. Sabemos, no entanto, que, se significativas, irão colidir com muitos interesses e confortos instalados. Assim sendo, as mesmas serão garantidamente alvo de significativa e, eventualmente, alimentada polémica. O que não as torna menos pertinentes e importantes para o nosso futuro coletivo no mundo atual. Muito mais que a empregabilidade, também a preparação para uma efetiva cidadania, tão complexa e alvo de tantos desafios nos tempos modernos, assim o exige.

Fernando Pessoa: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia; e se não ousarmos fazê-lo, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

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