Uma metáfora…Para que a opção não seja não educar

Voz às Escolas

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Luís Monteiro

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Para a crónica de hoje queria dar aos leitores do Correio do Minho uma perspetiva do que é a Educação Especial em termos de direitos dos nossos jovens.
Das últimas estatísticas publicadas pelo Ministério da tutela ficamos a saber que existem 79.077 alunos com necessidades educativas especiais (NEE), dos quais 69.139 encontram-se nas escolas públicas e os restantes em escolas especiais. Em unidades de multideficiência e surdocegueira estão 2.087 e em unidades de perturbações espetro autismo estão 1.886. Mas, temos apenas 6.439 de docentes nas escolas.

Estes dados são do ano letivo de 2015/16. Nesse sentido, ninguém melhor para falar deste assunto de direito a um tempo e a um espaço, uma docente da Educação Especial. O texto que se segue é pois o contributo da Drª Ana Paula Guerra, da Escola Secundária de Vila Verde (ESVV).
Porque todos temos direito a um tempo, a um espaço e a uma educação.
Usemos uma metáfora, que se acredita ter o poder escondido para gerar mudanças e provocar mentalidades e não querendo violar nenhuma regra semântica, entre o acesso à educação e o acesso à alimentação, diremos então que não importa a condição de cada um para ter necessidade e direito a ser alimentado.

Imaginemos uma situação típica. Alguém que tem um apetite regular e um funcionamento normal do organismo - o que acontece na sua alimentação? Alimenta-se autonomamente e consegue até decidir sobre “o que” e “como” comer.
Imaginemos a situação com alguns constrangimentos, mas ainda sem problemas de maior, uma situação com saídas ou resoluções airosas. Alguém que tem problemas com o seu apetite e/ou com uma determinada parte do (funcionamento) do seu organismo (ex. problemas de vesícula, gastrite ou outros), o que acontece com a sua alimentação?

Normalmente tem de ter cuidados específicos com o que ingere, com a quantidade, com a regularidade e com a preparação dos alimentos; mas, à partida, continua a ser autodeterminado quanto à sua alimentação (comer por si e decidir sobre o que comer, tendo em atenção as suas fragilidades). Neste processo provavelmente contou com a ajuda de especialistas para lhe fornecerem os conhecimentos necessários à gestão autónoma - ainda que periodicamente vigiada - do seu problema alimentar.

Imaginemos a situação com limitações de severidade diversa que, consequentemente requer cuidados especiais por necessidade mais intensa de suporte. Alguém que tem uma limitação no seu organismo que torna o ato de se alimentar extraordinariamente difícil. Por exemplo, alguém com um problema severo para deglutir - o que fazemos? Podemos triturar os alimentos de modo a que a pessoa possa, ainda que muito devagar e com muitos cuidados, comer autonomamente. E se alguém tiver mobilidade reduzida nos membros superiores - o que fazemos?

Podemos dar-lhe a comida na boca. Num sem número de situações de limitações diversas, gradualmente mais severas, continua a existir um conjunto de respostas específicas. Mas, bem mais grave, se alguém por razões de saúde e dependência não conseguir comer por via bocal - o que fazemos?
Alimentamos a pessoa por sonda nasal.

Imaginemos agora a situação com limitações muito severas. Alguém com incapacidade absoluta e definitiva para deglutir, alguém até em estado semicomatoso - o que fazemos com a sua alimentação? Provavelmente alimentá-lo-emos por sonda gástrica (alimentação entérica), eventualmente alimentação parentérica, por via endovenosa.
Num percurso de severidade a opção nunca foi não alimentar!!!

Agora façamos o mesmo exercício, apliquemos o percurso atrás metaforizado ao tempo e ao espaço educativo: da progressiva (in)capacidade à resposta em educação. Façamo-lo para que a opção de não educar, tal como a de não alimentar nunca seja, naturalmente, posta em causa.
Não importa a condição de cada um para ter necessidade e direito a ser educado, disso depende a sua humanidade.
Porque todos temos direito a um tempo, a um espaço e a uma educação.

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