O rolo de cera de S. Sebastião: uma tradição luminosa

Ideias

autor

José Hermínio Machado

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Lemos, em Memórias de Braga, Vol V, de Senna Freitas, pp. 195-198 (por cortesia de Rui Ferreira) a descrição da tradição do rolo de cera da capela de S. Sebastião das Carvalheiras: «Uma memoria notável - e como tal respeitada - está conservada na Capella de S. Sebastião.

É um caixão cylindrico, que se encontra no seu interior, à direita de quem entra: e dentro d’elle acha-se um abundante rôlo de cêra, de que nos dias sanctificados se acende o pavio à bocca do dito caixão. Significa este rôlo a medida da circumferencia da cidade: e tendo-se acamado cylindricamente, foi benzido e dedicado a S. Sebastião, (para arder nos domingos e dias santos), em agradecimento ao milagre recebido da cidade.

Durou aquella memoria até o anno de 1763: e então renovou-se esta medida, na total extensão de mil quinhentos e vinte e sete varas de rôlo, (1679 metros e 7 decimetros): e este novo rôlo continua a ter o mesmo destino do anterior.» Outra memória desta tradição do rolo de cera como símbolo da extensão dos muros da cidade encontra-se descrita em António José Ferreira Caldas, Guimarães - Apontamentos para a sua História, 2.ª Edição, Sociedade Martins Sarmento/Câmara Municipal de Guimarães, 1996, pp. 254-255: «Outra procissão notável, pela singularidade, era a do Espírito Santo, também chamada da Candeia ou Pavio. Foi instituída em 1489, por voto do povo, em razão duma grande peste, que então grassava em Guimarães (…) era conduzido um pequeno andor, simbolizando a torre de Nossa Senhora de Oliveira, coroada pelas armas reais e por uma pomba, e cercada dum rolo de cera branca, que devia medir a extensão dos muros da antiga vila.»

Outra documentação desta tradição de simbolizar em um rolo de cera o perímetro da cidade encontra-se nas Memórias Paroquiais de Alenquer (1758) a propósito da descrição «a Casa e as Festas do Espírito Santo de Alenquer: «Principalmente se prende um rolo de cera bento, a que chamam can¬deia, em o altar-mor da Igreja de São Francisco e daí se vai continuando a estender, preso nas paredes, pelas ruas da dita vila, até o altar-mor da dita Igreja da Senhora de Triana. (A.N.T.T., Memórias Paroquiais, vol. 2, n.º46-a, pp. 367-377).

Esta prática simbólica de afirmar a identidade do espaço, seja de um país ou de uma cidade, ou de uma propriedade, decorre da prática vivencial da construção de muros ou muralhas ou paredes com que uma comunidade se protege das ameaças do exterior e dos males do interior. A queima do rolo de cera exprime isso mesmo: ao consumir pelo fogo da luz a muralha que nos deve proteger, desencadeia-se o processo de interiorização dos valores que cimentam a comunidade. Nos tempos que correm, esta tradição tomou a forma de cordão humano, estendeu-se a domínios não exclusivamente religiosos e a variados tipos de causas.

Numa altura de nosso destino global em que os muros estão na ordem do dia e mobilizam argumentações de toda a ordem, é oportuno que consideremos encantatório, pelo menos em termos folclóricos, ou seja, em termos das crenças em que enraizamos a nossa identidade, esta prática simbólica que exprime a consciência de nossos limites: as procissões, os desfiles, os cercos, os cordões humanos, as carreiras de luzes, os mapas, as fronteiras, indiciam simbolicamente a necessidade de identidade: consumir os limites implica conhecê-los no presente e reavaliá-los num futuro próximo. S. Sebastião das Carvalheiras tem um condão de encantamento que pode sugerir formas de actualização, hoje que as tecnologias tornam tudo possível e verosímil, mesmo que possa ser para fomentar caminhadas em volta dos sucessivos limites que a cidade foi consumindo em torno de si própria.

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