O que Fátima me dá que pensar

Ideias

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Moisés de Lemos Martins

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“Foste o escolhido da Providência para realizares tão grandes coisas quase miraculosamente [... ] E o milagre de Fátima está à vista. Tu estás ligado a ele: estavas no pensamento de Deus quando a Virgem SS.ma preparava a nossa salvação. E ainda tu não sabes tudo ... Há vítimas escolhidas por Deus pa. orarem por ti e merecerem pa. ti'.
Foi assim que D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa, se dirigiu a Salazar, na carta que lhe escreveu, em 1946, convidando-o a estar presente em Fátima, no 13 de maio. Fátima e Salazar estavam indissoluvelmente ligados.

Fátima e Salazar estavam também irmanados desde as primeiras letras do Livro da Primeira Classe, entre os anos 40 e 70. Na letra “l” os meninos cantavam 'lá la ri lá lá / ela ele eles elas / alto altar altura / Lusitos! Lusitas! Viva Salazar! Viva Salazar!' Dando vivas a Salazar, os Lusitos e as Lusitas (assim se chamavam aos membros da juventude salazarista) são associados a um grande desígnio nacional, olhando para o céu, para o 'alto”, o “altar”, a “altura'.

A página ao lado, a da letra 'm', declina umas tantas invocações a Nossa Senhora, “Maria Imaculada”, 'Santa Maria', “Coração de Maria”, que na realidade não são mais do que invocações à Senhora de Fátima. 'Mês de Maria' e 'Mês de Maio' são, também, expressões que enquadram um altar consagrado à Virgem Maria, estando mãe e filha de joelhos, aos pés de Nossa Senhora.
No 1.° texto, os meninos que cantam, Lusitos e Lusitas, olham para o céu, porque o nome de Salazar é conjugado como altar da pátria - e daí: 'alto altar altura'. No 2.° texto, mãe e filha, em recolhimento, estão de joelhos, aos pés de um outro altar, o altar da Senhora de Fátima. À época, a aliança do altar da pátria salazarista e do altar de Nossa Senhora de Fátima parecia fazer deles um único e mesmo altar.

Disse em tempos Paul Ricoeur (Esprit, 1972) que os símbolos dão-nos muito que pensar, porque têm como função produzir a dimensão coletiva da existência, tornando possível que 'novos mundos modelem a compreensão de nós mesmos'.
Lugar simbólico por excelência do catolicismo português e da nação conservadora, Fátima continua, hoje, a dar-nos muito que pensar. Mas dá-nos, igualmente, muito que fazer. Porque os símbolos são lugares de um combate incessante pela definição da realidade social. Nos símbolos, existe sempre a voz de quem domina, embora se trate de uma voz transfigurada e suavizada.

Foi exatamente nisso que pensei ao ler o excelente livro A Senhora de Maio. Todas as perguntas sobre Fátima, dos jornalistas António Marujo e Rui Paulo da Cruz, numa edição do Círculo de Leitores, e que tive o prazer de apresentar, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga.
Portugal que vira promulgada em 1911 a Lei da Separação entre o Estado e a Igreja, viu Fátima entrar na sua história, em 1917, para nunca mais deixar de se cruzar com o destino do país - com o que é Portugal, e também, com o que somos como portugueses.

Fátima ajudou no combate à I República, laica e anti-clerical, e na afirmação do catolicismo conservador. Mas ontem como hoje, o catolicismo que quase exclusivamente se pratica em Fátima é o que resulta de um programa sacrificial e dolorista. Fátima parece o altar da religião de um deus sacrificador.
Também é verdade que, de 1939 a 1945, Fátima disputou com Salazar a glória de ter salvo Portugal da Guerra.

Fátima tem sido, ainda, ao longo de gerações, na procissão do adeus, uma fala ao coração, um estremecimento de alma, a doce arte de um país irmanado, a chorar num imenso cais de saudade, “o cais de todas as lágrimas que os portugueses verteram pelos quatro cantos do mundo, por onde andaram sempre a despedir-se, sem nunca saberem bem qual era a sua terra (frei Bento Domingues) - o cais de partida e de regresso dos emigrantes, e também o dos soldados que partiam para a Guerra colonial (1961-1974).
Fátima é, finalmente, “o altar do mundo”, que cumpre o império espiritual e cultural de alcance mundial prometido à nação portuguesa, enfim, é a realização de um destino messiânico para Portugal.

Mas o aspeto que talvez valha mais a pena realçar é que para se impor à nação portuguesa e ao mundo, Fátima precisou do 28 de maio. Salazar e Cerejeira eram amigos, tendo partilhado a mesma casa, em Coimbra. No Centro Académico de Democracia Cristã (CADC), tinham sido colegas de lutas académicas e políticas, contra a I República, partilhando os mesmos valores e vivendo as mesmas emoções. Salazar havia sido um importante militante do Centro Católico Português (CCP), o partido católico, e em 1928, embora fosse apenas Ministro das Finanças, era já o homem forte do regime.

Por sua vez, D. Manuel Cerejeira, ao tornar-se, em 1929, Cardeal Patriarca de Lisboa, fechou o ciclo que havia levado os homens do CADC e do CCP à chefia, tanto do aparelho de Estado, como da Igreja Católica, que passavam a navegar nas mesmas aguas.
Entre os muitos livros publicados, em 2017, sobre Fátima, A Senhora de Maio distingue-se como um caso singular. Constitui um coro polifónico de vozes, recolhidas como testemunhos ou em entrevista, de teólogos, historiadores, sociólogos, antropólogos, autoridades eclesiásticas, e também de contemporâneos das aparições.

Não se tratando de uma novela, A Senhora de Maio retoma, todavia, em grande parte das suas páginas, o género discursivo desenvolvido pela escritora bielorrussa Svetlana Alexievich. Num certo sentido, podemos dizer que António Marujo e Rui Paulo da Cruz desenvolveram a mesma técnica da prémio Nobel da Literatura de 2015: recolheram testemunhos e fizeram entrevistas, aproximando-se, desta forma, da substância humana dos acontecimentos. Mas fizeram mais. Indagaram o contexto dos conflitos entre República e Católicos. Voltaram ao fenómeno das aparições. Analisaram a beatificação dos pastorinhos. E interrogaram a atualidade de Fátima, passados cem anos.

Acrescento uma última nota. Fátima é contemporânea da Revolução de Outubro. Depois que, em 1935, em nome da “santa obediência”, Lúcia acedeu a escrever as suas “memórias” de infância, a conversão da Rússia passou a integrar a mensagem de Fátima. E esta mensagem tornou-se tão poderosa no mundo que bem podemos dizer que A Senhora de Maio, por lhe fazer inteira justiça, é o volume que faltava a essa espécie de políptico em que consistem os vários volumes que Svetlana Alexievich compôs sobre a União Soviética. A URSS também irrompeu, em 1917, vigorosa, com uma mensagem para o mundo. Mas desfez-se em 1989. Pode dizer-se que a A Senhora de Maio é o volume que a Prémio Nobel da Literatura nunca poderia ter feito. Fizeram-no, todavia, e de um modo excelente, António Marujo e Rui Paulo da Cruz.

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