Os casos de abandono, suspensão e mudança nos bens das tradições

Escreve quem sabe

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José Hermínio Machado

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Tomemos o caso das Convertidas, mais o caso do Hotel Frankfort, mais o caso do Cinema S. Geraldo e mais outros com semelhanças de estado e de memórias nesta nossa cidade de Braga. Que há de comum, que há de diferente? Em que se alterou o estatuto de tradição adquirido e em que moldes se poderá ele retomar?

Antes, porém, uma explicação sobre esta atribuição de tradição aos bens, físicos ou ideais: as coisas, como as ideias e como as pessoas inserem-se num contínuo temporal em que adquirem uma identidade de ser e de nomeação ou de linguagem, identidade essa que lhes confere uma «pertença» a uma tradição funcional de ser e de fazer e de dizer. Uma igreja está na tradição funcional dos bens religiosos, um hotel na dos bens de hospedaria, um cinema na dos bens de lazer, e por aí adiante. Mas no que toca às pessoas e suas criações, estes e outros bens adquirem essoutra dimensão de tradição que lhes é conferida pela relação pessoal de interacção, ou seja, pela memória das vivências pessoais e sociais.

As interrogações mais comuns quando estes bens deixam de cumprir a sua função na tradição a que pertencem são do tipo: o que é que se passou? A função suspendeu-se, perdeu-se ou abandonou-se devido a quê? Deterioração do edificado? Mudança de hábitos pessoais e sociais? Perda de qualidade concorrencial? Falta de investimentos de manutenção e conservação? Problemas de continuidade na posse e manutenção? Cada bem suspenso, abandonado ou modificado acaba por ter a sua explicação e o desenvolvimento histórico civilizacional acaba por instalar uma cultura de compreensão, umas vezes focada nas dimensões da iniciativa privada e concorrencial, outras vezes focada nas dimensões da iniciativa institucional ou pública.

Ao longo da história não faltam os casos de mudança drástica de função, de aparência, de lugar e de modo de muitos bens. Os campos e as cidades estão num contínuo de mudança de configuração. Isto não nos deveria surpreender, não fosse o caso de se instalarem na tradição de compreensão critérios cada vez mais escrutinados de valor patrimonial, de valor na paisagem, de valor memorial, de valor afectivo, de valor identitário. Responde-se a estes critérios de uma maneira simples: haja dinheiro e mantenham-se os bens e suas naturezas, ora nos mesmos moldes anteriores, ora como cenários do que foram, alterando a configuração interior, ora apenas nas funções, recriando ou alterando tudo o mais.

Nós temos, por força de correntes de pensamento estruturadas ao longo da história, uma sentimentalidade de ruína, isto é, aceitamos com relativa naturalidade que as pedras fiquem nos seus lugares e que o tempo as vá cobrindo e patinando, numa espécie de jogo interactivo entre o que poderíamos fazer e que que não conseguimos resolver mas que entretanto o tempo decide; esta naturalidade de aceitação traduz-se numa arqueologia cognitiva de conservação de marcos de conhecimento, uns micro, outros macro, de ruínas ou «bens abandonados».

E mesmo quando somos capazes de resolver o problema (o célebre caso de fazer a mão nova para a estátua amputada) preferimos a manutenção da estátua amputada. Somos sujeitos e vítimas de nossas criações e pagamos o preço. Então, que fazer? Uma criteriosa solução pragmática de equilíbrios, tanto dentro da iniciativa privada, como na pública: se o bem tem um valor intrínseco (caso da capela das convertidas, por exemplo) apostar na manutenção e revitalização funcional; se o bem tem uma memória funcional (caso do hotel e do cinema), decidir se é solução manter a função no local; se o bem tem uma presença na paisagem (os três casos), é cenário, procurar soluções de aproveitamento e conjugá-las com outras de potenciação da mesma. Quanto à tradição das memórias vivenciais, pessoais ou sociais, a tradição de as manter tem soluções de muita criatividade e todas funcionais.

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