O país onde nem todas as notícias são boas

Ideias

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Carlos Pires

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O nosso país tem andado numa profunda histeria e comoção nacionais. Os motivos são sobejamente conhecidos: tivemos a visita do Santo Padre, o Papa Francisco, convertendo-se Fátima (e a sua espiritualidade) num palco com holofotes visíveis em todo o mundo. Depois, em termos económicos, as boas notícias de um crescimento de 2,8% no primeiro trimestre deste ano, o que levou já o primeiro-ministro a apontar os meses de Junho e Setembro para confirmar-se, respetivamente, a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo e do lixo das agências de “rating”. Por último, ganhámos o festival da eurovisão e a honra de organizar o próximo. “Portugal: 12 pontos!” - eis a frase que mais se ouviu naquele prestigiado evento musical para orgulho e gáudio das nossas gentes. A memória coletiva começa finalmente a convencer-se de que quando queremos somos bons, somos os melhores (Presidente Marcelo dixit).

Posto isto, passemos a outras facetas do país real, as quais, infelizmente, nenhum orgulho nos podem suscitar.
O Jornal “Correio da Manhã” divulgou um vídeo de uma alegada violação de uma rapariga num autocarro da cidade do Porto, durante a Queima das Fitas. As imagens mostram um jovem com a mão dentro das calças da rapariga, notoriamente alcoolizada, enquanto os restantes riem e aplaudem. A expressão” da jovem é de total apatia, enquanto a cara do agressor é de orgulho e divertimento, levantando-se descontraidamente e sorrindo com ar cúmplice para quem filma. É possível ver que alguns jovens incentivam e filmam, sem que ninguém impeça ou diga para parar. Não contentes com o ato de filmar, estas pessoas divulgaram o vídeo por tudo quanto é lado e é agora impossível conter a velocidade com que se espalha.

Há ainda o caso de uma estudante da Universidade do Minho que se queixou às autoridades depois de descobrir que estava a circular na Internet um vídeo em que aparece seminua na Queima das Fitas, em Braga.

Trata-se de factos suficientemente graves, que impõem uma séria reflexão. Passo a partilhar convosco as conclusões a que cheguei.
1. Quando será que os dirigentes académicos e estudantis se mobilizarão para dignificarem a integração dos estudantes no ensino superior? Uma vez que os eventos, celebrações e festas de estudantes não devem servir para promover a humilhação com tradição académica.
2. Estamos perante casos de “cyberbulling”. A arma das agressões é o telemóvel. O que é colocado na internet fica lá para sempre, perde-se o controlo. Este vídeo vai estar sempre presente na vida desta rapariga, um rótulo que fica para sempre. Tem de existir uma prevenção o mais precoce possível; tem que ser dada formação aos jovens, para que fiquem mais atentos e sensíveis. Não interessa ora apurar se o ato foi ou não consentido pela jovem; mesmo que ela soubesse que estava a ser filmada, nunca tal situação deveria ter sido divulgada.
3. O que o “Correio da manhã” fez não é jornalismo. É entretenimento travestido de informação, recorrendo para isso ao total desrespeito pela alegada vítima. Mostrar aquele vídeo não acrescenta nada à notícia. A mesma poderia ter sido dada sem recurso a imagens. Por isso o seu uso é errado, despropositado e condenável. No limite, caso o Jornal entendesse que algum crime fora cometido, deveria ter entregue as imagens às autoridades para que estas fizessem o seu trabalho.
4. Não posso deixar de lamentar que jovens do ensino superior, mesmo que inseridos num ambiente de “festa”, revelem total ausência de maturidade e responsabilidade, adotando comportamentos eticamente muito reprováveis. Com os cursos superiores atualmente de duração tão reduzida - a maior parte a concluir-se em 3 anos - estes são os homens e mulheres que amanhã estarão no mercado de trabalho ou em organizações e estruturas vitais ao funcionamento da nossa sociedade. O futuro do país estará nas mãos deles. Não quero com isto dizer que todos os jovens estudantes deste país são como aqueles. Contudo também entendo que não devemos achar que aquilo se tratou de um facto excecional, irrepetível. No vídeo em causa todos os participantes atuaram como uma manada, ninguém impediu a agressão. Eis as gerações mais novas! Habituadas ao facilitismo e ao acesso fácil a bens (vg. telemóveis) e conforto, mas com total desapego pelos valores primordiais de respeito e sã convivência. Infelizmente são muitos os casos. Essa é que é essa.

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