“Tive que voltar a aprender, como se já não soubesse nada” - parte I

Escreve quem sabe

autor

Cristina Palhares

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Com a emergência do pensamento pós-moderno, o totalitarismo de teorias superpotentes, meta-teorias ou meta-ideologias, desaparece. O pós-modernismo favorece as “mini-narrativas”, histórias que explicam práticas e acontecimentos locais em detrimento dos conceitos globais. Assim, a leitura de histórias permite a identificação ou não com os seus autores, com os seus atores, com o enredo, ou simplesmente, com a situação. E faz-nos parecidos, torna-nos idênticos, tornando-se uma mais-valia interessante: permite pensar que afinal não estamos sós no mundo. Essa é também uma mais-valia da ANEIS - ajudar crianças e jovens e as suas famílias a perceber que afinal há meninos e meninas parecidos, com percursos de vida semelhantes.

Hoje deixo-vos este excerto de uma narrativa que em tempos escrevi: para entender um pouco a precocidade. E que começava assim:
“Pela janela do meu quarto, pequeno e acolhedor, vislumbro, como se a noite falasse, o céu negro cheio de estrelas brilhantes, cintilantes, que sussurram o meu passado. Hoje, tenho 13 anos, estou a terminar o 9.º ano e a vida sorri. Tal como a noite que me entra pela janela do meu quarto... Mas nem sempre foi assim. Não o foi de todo! E tu, minha folha branca, a quem resolvi contar serás a testemunha que eu sempre precisei e que nunca tive. Nunca, mesmo. Hoje entendo porque ninguém me entendia. Mas foi difícil, tal como é difícil recordar novamente e escrever-te: o meu primeiro dia no mundo... Foi tudo tão rápido... coitada da minha mãe. Mas, nasci com 33 semanas, 3,300 Kg e 53 cm. Tantos três... Tudo dentro da normalidade tal como disse o médico à minha mãe. Mas estava a crescer e uma das primeiras coisas que aprendi foi a olhar para a minha mão. Como eu palrava muito e não dizia nada de jeito, as primeiras palavras foram um verdadeiro milagre. Até já tinham dito aos meus pais que eu devia ser um bocado atrasada... Coitados! Foi a maior das surpresas. Nos dias seguintes as palavras novas já não cabiam no álbum que os meus pais iam fazendo... ao fim de 30 dias já formava pequenas frases e foi assim que de atrasada passaram a dizer aos meus pais que algo devia estar a acontecer comigo... não era normal uma menina tão pequenina (24 meses) ter já um vocabulário tão vasto e uma linguagem tão desenvolvida. Vai lá alguém entendê-los!... E pior que isso... tropeçava, caía, preferia arrastar-me do que andar a pé, e correr não era comigo. Foi mais ou menos por esta altura que eu comecei a escrever recados, tal como fazia a minha mãe. Despir e vestir bonecas era tão chato... Mas ensinar-lhes os números e as letras e mostrar-lhes histórias que eu lia era bem mais divertido. No fim do dia a educadora contava sempre à minha mãe o que eu tinha feito: contava histórias pelos livros aos meninos, pegava-lhes na mão para os ensinar a pintar, arrumava a sala toda... enfim, era feliz e fui-o até aos 5 anos. Estava ansiosa por poder passar o dia numa secretária.

(Algumas diferenças de desenvolvimento e características mais comuns da criança de 3 a 5 anos, incidindo na precocidade:
(i) Em geral são crianças com um desenvolvimento motor e atenção precoces desde o primeiro dia do seu nascimento;
(ii) Têm uma capacidade excecional de atenção, observação e memória;
(iii) Em geral aprendem a ler antes de frequentar a escola ou num muito curto espaço de tempo, mostrando sempre um vocabulário avançado, assim como um grande interesse pela leitura;
(iv) Desde muito cedo fazem perguntas exploratórias e não se conformam com uma resposta qualquer;
(v) Grande sensibilidade ao mundo que as rodeia e profundas preocupações;
(vi) Desenvolvimento precoce da maturação percetiva e memória visual;
(vii) Alta capacidade criativa;
(viii) Capacidade excecional de aprendizagem, implicando por vezes que as experiências da escola se tornem lentas e repetitivas. (Benito, 1992)).
“E cedo chegou o meu primeiro dia de aulas. Foi o máximo. Adorei poder mostrar os meus livros e cadernos novos, a minha pasta nova e, principalmente, o meu estojo. Consegui levar tantas coisas no estojo que fizeram a inveja dos meus amigos. Eu mostrei tudo com muito orgulho, mas queria era começar a usar. E sabes? Afinal nestes meus primeiros dias pouco aprendi. Foram uma seca... Tudo o que eu escrevia e lia não tinha importância. Tive que voltar a aprender, como se já não soubesse nada. Mas ia sempre para a escola na esperança de um dia aprender coisas novas.”

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