Para acabar de vez com um Portugal de pequenitos

Ideias

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Moisés de Lemos Martins

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O Portugal, aldeia rural a sonhar um império, onde vicejavam três tristes fs, apanhou três valentes safanões nos últimos tempos. Primeiro, foi a vitória de Portugal no Europeu de futebol, em 2016; e depois, foram a vinda do Papa Francisco a Fátima e a vitória dos irmãos Sobral no Festival da Eurovisão, ambos em maio de 2017.
Também penso como a filósofa americana, Marta Nussbaum, que o patriotismo é moralmente perigoso; que as pessoas devem olhar é para a comunidade mundial dos seres humanos, e não para a comunidade nacional; e que, além disso, o principal sentimento que as nações devem desenvolver não é a competição, mas a cooperação.

Se dúvidas houvesse, o “America First” de Donald Trump, que conduziu os Estados Unidos para fora do Tratado de Paris sobre as alterações climáticas, cá está para nos desenganar. E a mesma coisa acontece com o isolacionismo britânico, corporizado no Brexit. Com a Grã Bretanha a afastar-se da Europa, é todo o projeto europeu que ameaça ruir. Mas também se tornou claro para todos nós, com Marine Le Pen, em França, e Geert Wilders, na Holanda, que não é com o fechamento das fronteiras, nem ignorando os refugiados, que se combate o terrorismo islâmico, ou se impede o crescimento dos sentimentos xenófobos e racistas na Europa.

E, todavia, mesmo sem aparolados arroubos patrióticos, nem a paranoica exaltação de miríficas vantagens competitivas para Portugal, o que me proponho fazer aqui é uma breve reflexão sobre o meu país, uma das mais antigas nações na Europa, que ao sair da noite para o dia e entrando de vez no convívio das nações, pôde acabar com a mitologia nacionalista e patrioteira de um Portugal de pequenitos. É o que significam, a meu ver, a vitória de Portugal no Europeu de futebol, a vinda do Papa Francisco a Fátima e a vitória no Festival da Eurovisão pelos irmãos Sobral.

Mandado construir em Coimbra, em 1940, pelo médico Bissaya Barreto, o Portugal dos Pequenitos, metáfora de um Portugal que se queria rural e ultramarino, plurirracial e multicontinental, do Minho a Timor, pôde, finalmente, descansar em paz, tal como a ideologia que o alimentou. E descansando em paz, pôde entrar numa nova ordem das coisas, a de parque lúdico para crianças, que apenas conta uma saga mitológica sobre os portugueses, à semelhança do que acontece no Parque Asterix, em Paris, que conta a história mitológica dos gauleses.

Nos anos sessenta do século passado, o futebol teve em Portugal uma notoriedade tão retumbante quanto inesperada. Mas apenas numa análise apressada podemos comparar o Portugal de Eusébio ao Portugal de Ronaldo. Com Eusébio, num Portugal dessorado pela guerra colonial e pela emigração, o Benfica, sem nenhum jogador estrangeiro, chegou a cinco finais europeias, ganhando duas (1961 e 1962), e Portugal alcançou a terceiro lugar no Campeonato do Mundo, em Inglaterra (1966). Em todos estes êxitos, o futebol português contou apenas com treinadores estrangeiros, de Béla Guttmann a Otto Glória, passando por Fernando Riera e Elek Schwarz. E embora, logo a seguir ao Campeonato do Mundo, tenha sido equacionada a transferência de Eusébio para o Inter de Milão, Salazar impediu que isso acontecesse, considerando-o património nacional.

O futebol era, então, como o país, patriótico e nacionalista, um empreendimento isolado e “orgulhosamente só”.
Hoje, os melhores futebolistas portugueses jogam nos principais clubes europeus. Dos 23 jogadores que jogaram a fase final do Campeonato da Europa apenas seis jogam em Portugal. Vários treinadores portugueses, agentes e diretores desportivos integram a elite mundial. Mourinho chegou ao Olimpo dos treinadores. Leonardo Jardim é, hoje, um dos treinadores-coqueluche da Europa. Paulo Fonseca ganhou o campeonato da Ucrânia.

Outros treinadores portugueses ganharam, nos últimos anos, campeonatos em países tão distintos como a Rússia, Grécia, Suiça, Israel, Egito, Vietnam. Jorge Mendes é considerado um dos maiores agentes desportivos do mundo. Antero Henrique é o diretor desportivo do Paris Saint-Germain. Ganhar, em 2016, o Campeonato da Europa de futebol foi, sem dúvida, um feito estrondoso. Mas, vendo bem, um êxito que ocorre com alguma plausibilidade.

E se o próprio Eusébio foi assunto para Salazar, Fátima foi-o mais ainda, como disso dei conta em crónica anterior. E foi-o, porque precisou do salazarismo para se impor à nação e ao mundo. Não sei se por isso mesmo, o culto sacrificial, dolorista e intimista, que se vive em Fátima, sempre me constrangeu. Nada do que ali se vive me parece caminho de encontro, que faça comunidade. Não gosto daquela estética, de promessas intimistas, piras de cera a arder em labareda e passadeira de mármore, por onde se derrama um rio de miséria humana. E a estética imponente e esmagadora de Joana Vasconcelos não consegue fazer melhor, com aquela desvairada chamada à penitência, que parece vir direitinha das campanhas do Rosário, do tempo da primeira República, ou então do salazarismo mais empedernido.

Neste contexto, foi um acontecimento da maior importância para Portugal a vinda a Fátima de um homem bom, um homem santo e inspirador, como é, indubitavelmente, o Papa Francisco. Porque a sua mensagem, dita com a autoridade que lhe é por todos reconhecida, constituiu uma forte saraivada, tanto sobre o pietismo individualista de Fátima, como sobre os seus ressaibos salazaristas. Toda aquela estética ressessa precisa de Evangelho. E o Papa Francisco iniciou esse caminho de evangelização de Fátima.

E que dizer do Festival da Eurovisão? Sem o Portugal novo, o Portugal que emergiu “da noite e do silêncio” (Sophia), não vejo que fosse possível a vitória dos irmãos Sobral. É verdade que uma boa canção supõe talento, da parte do compositor, do intérprete e do orquestrador. E talento é coisa que não falta, tanto aos irmãos Sobral, como a Luís Figueiredo, autor dos arranjos da canção “Amar pelos dois”. Bem preparados, desempoeirados e sem complexos, falando fluentemente inglês, mas cantando em português, os irmãos Sobral e Luís Figueiredo representam, todavia, o Portugal jovem, reconciliado consigo mesmo e que é parte inteira no concerto das nações. É essa a razão pela qual considero a vitória na Eurovisão o terceiro e definitivo safanão dado no Portugal de pequenitos.

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