Festas de S. João de Braga: A ironia camiliana e a corrida do porco preto

Ideias

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Hilário de Sousa

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Com o início das Festas de S. João de Braga e depois de ter sido lançado pela Câmara Municipal de Famalicão, no passado dia 1 de junho, data em que se assinalaram 127 anos da morte de Camilo Castelo Branco, um novo roteiro turístico-cultural, alicerçado na vida e obra do escritor, convidando os turistas portuenses a embarcarem no histórico Comboio Presidencial até Famalicão, afigura-se pertinente assinalar nesta crónica uma das muitas referências camilianas a costumes bracarenses.

Este olhar pontualíssimo pretende tão-só sensibilizar para aspetos que, devidamente contextualizados, justificam uma visão integrada da riqueza recíproca que se pode gerar entre o Porto e as cidades que constituem o quadrilátero cultural. Não sendo objetivo deste texto aprofundar esta estratégia, detemo-nos apenas num interessante detalhe da obra literária de Camilo - um manancial de ironia e crítica dilacerantes - o costume muito antigo e único que é a célebre corrida do porco preto.

Há um texto do romancista de Ceide que retrata essa tradição, no volume Mosaico e Silva, intitulado ‘A mesa misteriosa’, a pretexto da famosa mesa das Carvalheiras que, segundo Contador de Argote (1676-1749), clérigo e historiador, teve origem numa Chancelaria Romana: “O leitor já foi ao Largo das Carvalheiras, em Braga e viu entre os monumentos romanos, contíguos à Capela de S. Sebastião, uma mesa de pedra com inscrição no rebordo, que diz BRACARA AUGUSTA (FIDELIS ET ANTIQUA). Se não se convenceu logo de que naquela mesa já comeram pretores romanos ou reis mouros, informou-se com o Contador de Argote e ficou sem saber a serventia da mesa” (Castelo Branco, Camilo - Mosaico e Silva de Curiosidades Históricas, Literárias e Biográficas. In Obras Completas. Direção de Justino Mendes de Almeida. Vol. XV. Porto: Lello & Irmão Editores, 1993, pág. 227).

Ora, segundo o Prof. Doutor João Paulo Braga (Caderno Cultural do Diário do Minho, de 8 de junho de 2016), Camilo, apoiado num manuscrito de um arcediago da Sé de Braga, desmistifica as altas origens dessa pedra, divulgando a sua verdadeira utilidade. Esse documento, com certeza desenxabido à leitura do romancista, é salpicado com a sua ironia mordaz: “Ora conta difusamente o códice que em certos dias do ano costumavam os bracarenses fazer montaria nas vizinhanças da mesma cidade. Esta cerimónia, imitada dos tempos gentílicos, passou a ser culto a S. João Batista, depois que a fé cristã espancou as trevas pagãs. Vejam que espancamento! O progresso redundou em apear do nicho um bruto olímpico e substituí-lo pelo precursor do divino Mestre!...” (idem, pág. 229).

E prossegue, apoiado no dito manuscrito: “Na madrugada do dia de S. João, feitas as cavalhadas, iam os fidalgos ao alto do Picoto, soltavam o cevado, e despediam atrás dele contra o rio Deste, onde o esperavam os moleiros sobre a ponte para lhe estorvarem a passagem, e obrigá-lo a vadear o rio. À aba do rio apinhoava-se povoléu daqueles sítios a escorraçar o porco para a ponte. A gente racional da cidade, divertida com as aflições do seu irmão perseguido, pendurava-se por aquelas montanhas, esfuziando jubilosos guinchos e gargalhadas que não há ali mais dizer. Enfim, se o porco passava a ponte era prémio do gentio fluvial que o comia; se passava o rio, era dos moleiros que o comiam também. E tudo isto em honra e louvor do Sr. S. João Batista e aproveitamento das almas” (idem, págs. 229-230).

E ligando essa tradição, que ocorria junto à capela de S. João, ao largo de S. Sebastião e à famigerada pedra, afirma: “Acabado o festejo, vinham os cavaleiros à alameda de S. Sebastião e sobre uma pedra que ainda hoje se conserva em forma de mesa (…) a qual estava muito armada e cheia de cestinhos com as frutas daquele tempo, outro mordomo da Confraria de S. João repartia pelos cavaleiros as tais cestinhas que eles levavam pela cidade com muita galhofa às pessoas da sua obrigação” (idem, pág. 230).

Concluindo, o romancista sublinha como, no que toca à serventia da pedra, a montanha pariu um rato ou, neste caso, como a pedra romana pariu um porco: “Feitas as contas, a pedra que insinuou ao Contador de Argote a existência de uma chancelaria romana ali pelas Carvalheiras, sai-nos pura e singelamente uma pertença à festa dos porcos. Ora vejam! Esperamos poder exumar do pó do olvido muitas destas páginas gloriosas para orgulho, sapiência e edificação do leitor” (idem, pág. 230).

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