Tempos de menino... no lugar da aldeia

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Félix Dias Soares

Sempre que passo no lugar da aldeia, lembro o cheiro e o verde dos campos, onde partilhei com outros criados, tantas alegrias e por vezes amarguras, confundindo as tarefas diárias com as brincadeiras de menino. Neste lugar, vivia a nobreza da minha terra, debruçada sobre vinhas e olivais. As grandes casas de granito, com as suas imponentes entradas, transmitiam-nos a grandeza deste lugar, mas também a paz e harmonia que nos alimentava a ilusão e a fantasia.

Tenho saudades daquela casa e do seu luar, que se confundia com o vermelho rubro do nascer do sol, nos umbrais da minha janela. Do despertar, com os cânticos das aves, nos verdes campos, que a natureza que se encarregara de pincelar. É à casa do Machado do lugar da aldeia, que faço referência. Aqui passei três anos muito importantes da minha vida, foi nesta casa que passei parte da minha adolescência, formei o meu carácter e me fez homem. Sim, porque nesse tempo, éramos adultos mais cedo.

Foi a pedido do Sr. Machado e depois de muita insistência, que os meus pais cederam ao seu pedido, tendo em conta as boas referências daquela família. Eu com os meus onze anos, também fui ouvido e aceitei dar esse passo, era corrente e habitual nesse tempo os lavradores terem como criados os filhos dos pobres. Aqui fiz a Comunhão Solene, era confundido com os membros desta família por muita gente e com ela vivi até aos catorze anos, idade que comecei a trabalhar e a cotizar para a Segurança Social.

Não será necessário dizer que ao longo de três anos fiz algumas asneiras, sim bastantes, mas era o próprio Sr. Machado, a quem eu chamava Serantone, o primeiro a proteger-me com o seu olhar por vezes reprovativo, mas paternal. Era um homem de pouca paciência, por vezes severo no seu julgamento, um homem para quem a palavra dada, tinha mais valor que todos os documentos e carimbos do mundo.

É uma pequena homenagem, que faço ao Sr. António Machado, agricultor do lugar da aldeia, há muitos anos falecido, mas presente na memória dos mais velhos, sendo lembrado como um homem de elevados valores. Compreendo, se não for compreensivo para todos, este reconhecimento, de um criado ao seu patrão. Era pois um homem invulgar, muito á frente no seu tempo, tendo estado na América, trouxe de lá alguns bons costumes, tais como ouvir noticiários, ler os jornais e amigo de conversar, portanto bem informado.

O Sr. Machado recebia a visita de antigos criados, alguns no Estrangeiro, mas sempre que vinham cá, faziam-lhe uma visita, sendo sempre bem recebidos, eu ainda era muito novo e não compreendia aquela consideração dos criados pelo seu antigo patrão.
Talvez houvesse uma certa magia naquela casa, que nos deixava cativos daquele lugar, porque também eu segui os passos dos meus antecessores, visitando-o sempre que vinha cá nas férias. Mesmo quando já estava muito doente, conservou sempre o bom censo e rectidão. Foi nessa altura que vi a nobreza daquele homem e o grau de estima, que tinha pelos amigos, mesmo tendo sido seus criados.

Não foi fácil viver nesse tempo, sobretudo para o Sr. Machado que tinha por hábito dizer o que pensava, sem restrições algumas, mesmo quando de política se tratasse. Era conhecida a sua opinião a respeito de Salazar e da sua política, falando abertamente contra o regime, muitas vezes a Pide farejou a sua porta, sem sucesso, visto ser pai de um Catedrático de muito valor, ele sabia dessa protecção e usava-a como escudo, permitindo-lhe criticar abertamente a ditadura e a censura deste País.

Atrás falei da magia daquela casa, onde estavam bem vincadas as vivências de uma família tradicional, onde a moral e a boa educação estavam presentes, mas também, a disciplina e o respeito. Valores que durante muitos séculos, foram o pilar da nossa sociedade e que estiveram na origem da nossa civilização e desenvolvimento, valores que hoje estão ameaçados de forma assustadora, pela falta de respeito pelas pessoas, sobretudo dos idosos, esses que estão na origem da nossa existência e aquém devemos tudo. Não foi difícil a minha adaptação a esta casa, devido há minha humildade e boa educação, talvez por isso, fui considerado como filho naquela casa, muito diferente do trato que tinham outros criados.

Hoje, sinto saudades desse tempo, das gentes daquela casa de pedra, do cheiro daquele lugar, da água límpida da fonte de aldeia, onde ia levar o gado a beber. Fonte onde muitos namorados terão deixado tantos segredos, nesse lugar de paz e magia, que convidava ao amor. Tenho saudades daquele luar, que iluminava com um manto dourado, os verdes campos na noite sombria, onde as aves da noite cantavam à porfia. Como eram lindas as Primaveras e os campos na minha infância, eram uma aguarela… colorida com vida. Davam-nos alegria… davam-nos esperança, nos meus tempos de criança.
Tudo girava embalado, numa harmoniosa sinfonia… e no silêncio da noite, um pássaro cantava, enquanto um menino dormindo… sonhava… sonhava.

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