História do meu diário

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Pontes de Oliveira

P.S. era um homem de direita, politicamente falando. Fiel às suas convicções políticas, não tinha pejo algum em afirmá-lo publicamente. Afirmava-o logo a seguir ao 25 de Abril de L974 no denominado período do PREC (Período Revolucionário em Curso), o que muito contribui para o levar a uma cela da prisão durante longos meses, e afirmava-o já nos finais dos anos oitenta do século passado, quando o PS estava no governo e Mário Soares era o L.e ministro.
Lembro-me bem dos seus discursos de apreço a Salazar. 'Eu sou salazarista. Foi ele que livrou o país de entrar na 2.ê guerra mundial, foi ele que nos tempos difíceis, da guerra, da fome, da miséria, conseguiu equilibrar as finanças públicas e salvar o país da bancarrota. Foi o Salazar que mesmo com as três guerras no Ultramar conseguiu aumentar substancialmente as reservas de ouro. Os socialistas e os comunistas são uns traidores da Pátria que dão tudo, o que têm e o que não têm, e isso vai levar o país à bancarrota. Quando isso acontecer vão dar-me razão'.
Quem o quisesse ver zangado era só manifestar admiração por regimes políticos de esquerda ou mesmo de centro esquerda. Quem o quisesse ver fulo era defender ideais socialistas e mais ainda comunistas.
O P.S. era meu camarada de trabalho. Oh! Não! Ele nunca aceitaria o termo camarada. Em respeito pela sua memória substituo o termo camarada, por colega. As nossas funções, públicas, estavam ligadas à inspeção do trabalho. Eu era mais novo que ele cerca de vinte anos e dois anos da minha juventude perdidos ingloriamente numa guerra sem sentido, em Angola, tinham direcionado o meu pensamento político na direção da esquerda.
Sempre que nos deslocávamos na viatura oficial em serviço externo - eu era quem conduzia - conversávamos sobre vários assuntos e às vezes surgia a política. Nesses momentos era mais que certo que acabávamos por discutir acaloradamente, embora sempre de maneira civilizada. Não esqueço o dia em que ele, numa empresa, me deixou pasmado com o seu discurso. Eram nove e meia da manhã quando seguíamos rumo a Barcelos numa viatura oficial, em serviço inspectivo. A certa altura, de forma intencional, decidi quebrar o silêncio, provocando-o:
- Ó P.S. você já viu que este governo, do PSD, não reconhece o valor do nosso trabalho junto das empresas e dos trabalhadores?
- São todos iguais - limitou-se a dizer.
Vendo que ele não tinha sentido a alfinetada, voltei à carga, procurando atingi-
lo no seu ponto fraco:
- Sabe uma coisa, caro colega e amigo, já tenho saudades do anterior, do PS,
com Mário Soares...Mas de quem eu tenho mesmo saudades é de Vasco Gonçalves.
Ao evocar os nomes destes dois políticos em termos elogiosos, a reação de P.S.
foi rápida. Nervoso, berrou aos meus ouvidos:
- Ó P.O., ou se cala com essa conversa, ou para o carro que eu quero sair! Se
quer que continuemos amigos não me fale dessa gente, desses esquerdistas, socialistas e comunistas...Traidores da Pátria! Fale-me de patriotas.
Vendo-o tão nervoso, procurei deitar água na fervura:
- Tenha calma, tenha calma! Você bem sabe que eu não digo isto por mal. Estava a brincar...Não nota ironia nas minhas palavras? Eu respeito as suas ideias políticas. A nossa amizade é tão grande que não nos podemos zangar.
Mais calmo, lá foi dizendo:
- Eu sei que você não diz exatamente aquilo que pensa. Diz essas coisas só para pegar comigo. Mas eu não gosto...
Às dez e meia em ponto estávamos no escritório de uma pequena empresa com cerca de 30 trabalhadores, em serviço de inspeção. Sentados a uma secretária eu o P.S. íamos analisando vários documentos. Ao nosso lado, de pé, apavoradas com a nossa presença, estavam a responsável da empresa e a empregada do escritório. A um canto podia ver-se um pequeno oratório com a imagem da senhora de Fátima. A cada documento que pedíamos ou pergunta que fazia aos, a responsável da empresa respondia: 'lsso é com a responsável pelo escritório'. Sempre que a trabalhadora não apresentava o documento solicitado ou não respondia às nossas perguntas, a patroa grunhia: 'Paga a empresa a esta gente para isto...'
Meia hora depois tínhamos verificado que a empresa não estava a cumprir com uma série de obrigações legais e contratuais, nomeadamente com os salários, subsídio de refeição e horário de trabalho.
Foi então que o P.S. me surpreendeu. Com os olhos postos no oratório, perguntou:
-A senhora é católica?
- Sim, sou senhor inspetor. Católica e devota da senhora de Fátima.
- Sim senhor. A fé é que nos salva...que nos livra do inferno, não é verdade?
- Sem dúvida, sem dúvida, senhor inspetor.
- O comportanento de cada um no dia-a-dia da nossa vida e o tipo de relações
que mantemos com os outros, nomeadamente as relações de trabalho, são de somenos importância. A fé, essa sim, pode levar ao perdão de Deus que nos abre as portas do céu. Por isso é que a religião é tão importante. A religião que os comunistas radicais têm vindo a por em causa. Comunistas que não acreditam nas aparições de Fátima...

os comunistas são todos ateus. Não acreditam em nada.
- Quer dizer que a senhora, como eu, não gosta dos comunistas?
- Não gosto e nem os posso ver, senhor inspector! Eu sou cDS.

P'S' ficou em silêncio algum tempo olhando na direção do oratório. A certa altura, disparou:
- A senhora não gosta nem pode ver os comunistas mas na verdade fabrica-os aqui na sua empresa!
- Como, senhor inspetor? Não compreendo...
- É fácil de compreender minha senhora! eu qando uma empresa não cumpre com as obrigações legais e contratuais com os trabalhadores, como é o caso da sua, está a abrir as portas aos comunistas. A melhor maneira da senhora ajudar a combater os comunistas é cumprir com os seus deveres de entidade empregadora.
Como eu, a responsável da empresa estava estupefacta. P.S. levantou-se calmamente da cadeira.
- A inspeção terminou - disse. Eu e o meu colega vamos apurar as diferenças salariais e o subsídio de refeição, bem como as horas de trabalho prestadas a mais pelos trabalhadores que a senhora pode pagar voluntariamente. vamos ainda levantar os autos de notícia pelas infrações verificadas. Bom dia e fique bem.
Especada ao chão, a responsável da empresa não tugiu nem mugiu. No oratório
a imagem da senhora de Fátima manteve-se alheia a tudo o que ,ll ,a passava e
passou, a empregada do escritório deixou transparecer um ligeiro sorriso e o cuco saiu a porta do relógio de parede e cucou doze vezes.
- Vamos almoçar - disse o P.S.

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