Hecaté

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Cláudia Catarina Graça

Na era em que as cruzadas tentavam recuperar a terra santa e se viviam tempos de vassalagem, num lugar esquecido, permanecia envolto num assentamento árido, uma pequena ilha e com ela uma história intemporal.
Rodeado de uma flora e fauna densa, permanecia inalterável, um castelo medieval geometricamente desenhado, de tal forma, que para além do edifício principal e da torre circular, dividida internamente e ligada por escadas, morava naquela ilha uma borboleta branca, que descansava poisada numa flor, que ocupava o pouco solo terroso que dividia a ilha da quietude das águas.

Envolto num ambiente inóspito, rezava a lenda que aprisionada na torre circular, vivia Hecaté, uma princesa presa a um feitiço aparentemente inquebrável. Nunca ninguém a tinha visto. Mas ouvia-se dizer, que Hecaté reflectia todas as cores do espetro. Semelhante a uma deusa pagã, iluminada por magia e encantamento cantava melodiosamente em noites de tempestade e transformava-as em dias de sol. A voz, com um timbre celestial dava vida à pequena aldeia, que do outro lado da margem esperava paulatinamente para que o dia nascesse.

Era quase certo que o sol nascesse todos os dias, até que certo dia a densa tempestade teimava em não desaparecer. Os aldeões começaram a ficar apreensivos, pois a voz de Hecaté não se fazia ouvir. Uma irrequietude provocada por uma tempestade, que avizinhava nuvens espessas de gotas gélidas e pesadas, que teimavam em permanecer, eram agora o dia- a- dia desta aldeia.
A princesa tinha perdido a voz e dependia unicamente da branca borboleta que descansava poisada no lírio azul que emanava um perfume de uma fragância fresca e floral. Com a pouca e singela voz que lhe restava, Hecaté conseguiu chamar a pequena e branca borboleta, que outrora tinha sido um príncipe. Mas a borboleta não era capaz de se libertar daquela fragância que permanecia como se de um veneno do amor se tratasse.

Hecaté e o príncipe, tinha sido amaldiçoados por Ódoria, deusa grega dos perfumes e odores, em virtude desta se ter apaixonado pelo princípe que sempre a rejeitou. Ódoria enfurecida pela rejeição aprisionou Hecaté e transformou o príncipe numa borboleta, que para o resto da sua vida só iria ouvir a voz da sua amada, sempre pousado em Ódoria, o lírio, que emanava um perfume que ludibriava a borboleta.
Tudo parecia perdido e sem solução…..

A voz de Hecaté, a tempestade perene e infindável que atormentava a aldeia e o príncipe preso a um aroma maledicente e perverso, que o mantinha preso à singela ilusória e desleal flor.
Até que, vindo não se sabe bem de onde, no meio de um denso e profundo nevoeiro, do alto da sua torre a princesa avistou uma pequena embarcação.

Deslizava sobre as límpidas águas um barinel com dois mastros, envergando um pano redondo, e equipado com um cesto de gávea e um castelo de proa, que se movimentava ao sabor do vento. Não se avistava a tripulação. Parecia andar à deriva, pois o pano estava rasgado e um dos mastros partidos. À medida que se aproximava a visão turva provocada pelo nevoeiro, começou a desaparecer, e Hécate teve a sensação ténue de ver alguém. De baixa estatura, magro, cabelo escuro apareceu um rapaz. Vestia uns corsários castanhos-claros, uma camisa branca amarrotada e segurava um objecto que lhe permitia aprimorar a visão. Talvez os binóculos que ele segurava o tivessem chamado a atenção para o castelo. O barinel atracou.

Numa ilha tão pequena, com um castelo e uma porção de terra tão minúscula, o rapaz dirigiu - se de imediato à entrada principal do castelo. Tentou de todas as maneiras entrar, mas nada surtia efeito. Não havia janelas, a porta era impenetrável, a torre altíssima e a voz da princesa não se fazia ouvir. Foi então, que sentiu a fragância do lírio e decidiu aproximar -se. Questionava -se o porquê, de uma flor tão bela num sítio tão inóspito! O odor era inebriante, de tal forma, que nem reparou na branca borboleta, aproximou- se do lírio, e numa atitude vertiginosa arrancou a flor da terra. De imediato, o príncipe se transformou, a voz da princesa fez-se ouvir, o denso nevoeiro levantou e lentamente tudo se começou a vislumbrar. A tempestade desapareceu e o sol começou novamente a brilhar.

Vivia agora aprisionada na Torre Ódoria, que acabaria os dias atormentada pela melodiosa voz de Hecaté, que todos os dias, à mesma hora continuava a cantar, todavia para solenizar e louvar a alegria que era agora a máxima da pequena ilha!

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