Bilhete de cão

Conta o Leitor

autor

Escritor

contactarnum. de artigos 471

Luís Ferreira

Do lado de dentro da venda o Antero disse ao Chico do Aires:
- Lá vem o Clementino! Tem andado numa fona em busca duma carta.
O Zé Barroso, atento à conversa, comentou para o lado: - Como não sabe ler, quando a carta chegar, logo ficamos a saber se é rapariga nova, ou viúva.
O Clementino, que ouvira o dichote, esclareceu: - Eu lhe conto, Zé Barroso, mas não seja malicioso, que sou homem bem-casado. O meu amo, todos os anos, me manda buscar os cães de caça ao Porto, e é isso que me preocupa, já pouco falta para a abertura geral, e ele sempre são doze léguas de caminho.
- O seu patrão é assim tão tacanho que não paga as passagens? -perguntou o Chico do Aires.
- Paga, sim, senhor, mas se eu me mandar a pé, ganho o dinheirinho das passagens, que nestes tempos de guerra com os alemões uma pessoa tem que aproveitar tudo, não lhe parece Antero?
Estavam nesta prática, chegou o carteiro com um postal para o Clementino, que o Antero, de imediato, leu em voz alta: “Vem buscar os perdigueiros até ao dia quinze.”
- Hoje são treze, disse o Clementino, tenho de dar à perna para a mulher me aviar a troixa, que esta madrugada já me lanço à estrada.
Escuro como breu, arrancou de casa, botas cardadas, que a caminhada era longa, vara de lódão, para o que desse e viesse, com a troixa às costas.
Ainda era noite já estava para lá de Braga, a caminho da Trofa, onde iria pernoitar a casa duns lavradores seus conhecidos de outras andanças.
Tinha a vaga esperança duma boleia, mas o mais certo era ter de palmilhar todo o caminho, que os carros a gasogénio eram ao lá vai um. O calor do meio-dia já apertava com força, afastou-se da antiga estrada real, em busca da sombra de umas carvalhas, e aproveitou para petiscar o parco merendeiro, abrigado pelo muro, em redondo, de uma nora de rega.
Mal tinha acabado de arrumar os poucos teres, uma mulher nova de casibeque verde apareceu-lhe de súbito, e, à laia de convite, sem nada dizer, ergueu as saias, exibindo-se-lhe toda nua da cintura para baixo.
- Obrigado menina, sou um homem casado! Deitou a correr, e só parou numa tasca à beira da estrada, onde, para seu sossego, emborcou dum trago duas malgas de tinto, e prosseguiu caminho.
Aos trancos e barrancos lá chegou a casa do patrão.
- Clementino, vamos à estação dos comboios, levas o perdigueiro e as duas cadelas até Braga; depois, segues a pé, e sempre de olho nos cães, não vão fugir-te.
- Pode ficar descansado patrão, que não facilito, hemos de chegar à Quinta sem perigo.
Na bilheteira pediu um bilhete de gare, para si, e quatro bilhetes de cão para o Clementino.
- Toma os bilhetes; vamos procurar um vagão do gado mais vazio, para te poderes sentar, e onde os perdigueiros vão à vontade.
Com uma chave mestra, que sacou do bolso, foi abrindo vagões, ao longo da composição, em direcção à máquina - rápido, neste vazio, trancou a porta… e o comboio abalou.
Boa viagem, ainda gritou de fora, mas o Clementino já nada ouviu, pasmado para o seu bilhete de cão!

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Conta o Leitor

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia