O serralheiro e as suas esculturas

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M.C. Correia

As luzes acendem-se e iluminam o chão coberto de limalhas e pó formando um tapete escuro. Chegou a hora de trabalhar! Três bancadas de trabalho são ocupadas por três serralheiros que vão construindo as peças descritas nos desenhos técnicos. São uma espécie de escultores do metal. As rebarbadoras cospem limalhas formando fogos-de-artifício luminoso. O som a luz, tudo em consonância laboral.
Numa das bancadas o serralheiro mais velho dos três, com 60 anos, vai cortando pedaços de chapa sobrante, e, em cada pedaço vê uma possível obra de arte. Enquanto os outros dois serralheiros enchem o contentor com esses pedaços que viram sucata, ele raramente o faz!
Quando surge um pequeno intervalo, daqueles em que o trabalho não aperta, o escultor vai fazendo as suas obras: um moinho de vento, uma escultura surrealista do Cristiano Ronaldo, uma menina de olhos em forma de fêmeas roscadas e um jovem cheio de músculos em forma de molas. Depois de pintados, vão ocupando cada uma das esculturas, um lugar na casa do serralheiro escultor. São como se fossem filhos, os seus filhos mais novos. A sua família de carne e ossos são: mulher e três filhas. Mas estas esculturas eram uma espécie de filhos só dele, tratados com amor, como se fossem de carne e ossos.
Por vezes os colegas criticavam-no por aproveitar toda a sucata, e diziam que por baixo da bancada aquilo era uma autêntica sucata. Mas quando viam as esculturas ficavam com aquele ar de admiração e sempre iam dizendo: está porreiro, até ficou giro! O caminho era sempre em frente, quando se tem convicção nada nos detém, pensava muitas vezes quando o criticavam, e não ficava vaidoso com os elogios, o que fazia, era por amor. Pode parecer estranho dizer que é por amor! Amor ao ferro? Em cada pedaço de metal ele via uma forma de um ser e não conseguia simplesmente matar o que via, então transformava, amava e cuidava as suas obras.
Os anos foram passando e o serralheiro escultor continuava a fazer as suas esculturas, a viver a sua vida familiar com amor e Harmonia. As filhas foram casando e depressa vieram os netos, que enchiam a sua casa de pequenos traquinas movendo e deitando as esculturas ao chão. Ele, amorosamente levantava-as e dizia para os meninos e meninas terem cuidado que se podiam magoar. A sua esposa era um amor, adorava-o e amava-o.
A crise de 2008 apareceu do nada e as suas filhas emigraram. Nesta altura da sua vida já estava reformado, e a sua vida era repartida entre o amor da sua esposa e as suas esculturas que cuidava e ia fazendo mais algumas de restos que trazia da sucata da antiga serralharia aonde trabalhou.
Um dia acordou de um sonho: em que as suas esculturas ganharam vida! Entusiasmado levantou-se e foi ver uma a uma, mas nenhuma se movia, nenhuma falava, eram esculturas estáticas. Foi um sonho, e voltou para a cama. Estranhamente a sua esposa estava imóvel como as suas esculturas! Depois da frustração do sonho a frustração da realidade: a sua esposa estava morta! Nesse momento era um homem só e a ficar velho. Sentia-se perdido, desamparado.
As suas filhas tentaram leva-lo com elas, mas ele teimosamente quis ficar só, ter a sua independência, viver a sua vida, por muito amarga que fosse.
O serralheiro estava velho, já não fazia esculturas e olhava muitas vezes para as que fazia com a mesma ternura de sempre, isso ajudava-o a suprimir a falta da sua esposa.
Um dia adoeceu e ficou na cama imóvel, sem comer e beber durante dois dias. Ninguém sabia que ele estava doente, as filhas estavam longe, e os vizinhos eram poucos e distanciados dele. O seu estado de saúde agravava-se e já pensava em morrer, a boca estava seca, a cabeça quente de febre, era agora que se ia juntar à sua esposa, pensava ele.
Abra a boca! Ouviu uma voz que parecia bem longe, e abriu. A frescura de um pano húmido na testa e um copo de água davam-lhe a esperança que tinha perdido. Abriu os olhos com muita dificuldade e achou que estava alucinado! O Cristiano Ronaldo, a Menina dos olhos de fêmeas roscadas, o Jovem de músculos em mola e todas as esculturas estavam todos à volta da cama! Não é verdade, eu estou a morrer, isto é o meu último sonho antes da minha despedida. Falava numa voz arrastada. Não está a sonhar, disse o Cristiano Ronaldo surrealista. A partir de hoje somos nós que vamos tratar de si, o seu amor por nós vai ser agora a sua recompensa. Falou a Menina com olhos de fêmeas roscadas, acompanhada por todos num coro sincronizado.  
  O velho serralheiro a partir daquele momento nunca mais ficou só, tinha os seus filhos de metal que cuidaram dele até ao último sonho!

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