Melhoramento Humano ou Antropotécnica?

Ideias

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João Ribeiro Mendes

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Concorrem hoje no internacionalizado mercado das ideias duas expressões linguísticas para fazer referência a um mesmo suposto fenómeno tão controverso quanto de grande alcance: “Human Enhancement” (Melhoramento Humano, MH) e “Anthropotechnique” (Antropotécnica, A).
Interessantemente, ainda que a primeira se apresente na atualidade muito mais disseminada, sobretudo por o idioma inglês ser mais influente, a última possui uma história mais densa e longa.

Com efeito, como mostrou Jérôme Goffette, a ideia de A. surgiu em França no último terço do século XIX e foi entendida até ao final da Segunda Guerra Mundial como área de aplicação do conhecimento da Antropologia no apuramento dos seres humanos, por analogia com a Zootecnia como Zoologia aplicada. Nas décadas de 1950-60, todavia, segundo o académico francês sofreu uma alteração semântica, passando a designar um projeto de melhoramento dos indivíduos humanos em benefício da sociedade e vice-versa ou, se se preferir, a sua simbiose.

Mais recentemente, no dealbar do século em curso, e ainda segundo aquele, a A., em boa medida pelo labor reflexivo do conhecido pensador alemão Peter Sloterdijk, do filósofo belga Gilbert Hottois e do próprio Goffette, não somente entrou nos países germanófonos e anglófonos, onde até então esteve ausente, como recebeu por uma segunda mutação de sentido passando a referir, numa definição proposta pelo último, um «campo de atividade de transformação do humano, intervindo sobre a sua corporeidade, cuja finalidade não é a luta contra a patologia, como acontece com a medicina».

Esta terceira e corrente fase da A. coincide temporalmente com a do surgimento no contexto anglo-americano dos estudos sobre MH. Parece bastante consensual neste momento que a expressão “Human Enhancement” foi extensamente adotada pela comunidade académica na sequência do trabalho coletivo Enhancing Human Traits, coordenado por Erik Parens (1998) e tornada depois amplamente conhecida do público em geral (a começar pelo estadunidense) com o relatório do Conselho Presidencial de Bioética dos EUA Beyond Therapy (2003).

No conjunto de ensaios Enhancing Human Capacities, organizado por Julian Savulescu et alii (2011), logo na página inaugural se reconhece que a expressão MH é «o denominador comum para aplicações ou atividades que são concebidas para temporariamente ou permanentemente melhorarem seres humanos de diferentes modos, em vez de apenas repararem danos.»

Qual das duas expressões, por conseguinte, deve ser preferida? Ambas possuem um termo comum: “humano” (“antropo-“) e outro diferenciador: “melhoramento” (que não constitui uma tradução perfeita de “enhancement”)versus “técnica”. Ora, afigura-se evidente que MH é mais difícil de precisar, expondo-se não somente à acusação de servir indistintamente para indicar propósitos terapêuticos (e.g., restaurar a força perdida num braço) e não terapêuticos (e.g., decuplicar a força normal de um braço), mas também a de referir coisas tão diversas como próteses biomecânicas, psicofármacos, uso de computadores ou aprendizagem de línguas. A., em contrapartida, é mais neutral, denota tecnologias (emergentes) destinadas a intervir no corpo humano para lhe provocar uma transformação física, cognitiva ou emocional e engloba práticas frequentemente desconsideradas nos estudos sobre MH como a cirurgia estética, a contraceção e a dopagem desportiva.

Parece-me, no entanto, que, como MH conota mais finalidade que instrumentalidade e A. o oposto, será de privilegiá-la.

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