As armas de fogo e os fogos florestais: interesses económicos e incúria política: o cocktail perfeito

Escreve quem sabe

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Fernando Viana

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A recente tragédia de Pedrógão Grande com o terrível balanço em termos de perda de vidas humanas e animais, de bens e o drama social inerente não podem deixar de nos emocionar e indignar. Indignar, sobretudo por tudo isto seria evitável ou não atingiria estas proporções se quem tem responsabilidades políticas fizesse o que deveria ser feito.
No ano passado (2016), que foi um ano terrível em termos de incêndios, no fim do verão, lembro-me perfeitamente de ter ouvido o Governo dizer que daí para a frente nada seria como dantes. Iria ser feita uma avaliação rigorosa ao que está mal a que se seguiria a subsequente ação legislativa, técnica e material para que nada de idêntico voltasse a acontecer.
Entretanto, percebemos agora que, mais uma vez, nada foi feito. O Plano Nacional de Defesa da Floresta está parado na Assembleia da República. Ao que se sabe não é objeto de avaliação há quatro anos. Ao que parece, por decreto-lei, o período critico no âmbito do Sistema de Proteção da Floresta contra Incêndios vigora de de 1 de julho a 30 de setembro. É dentro deste período que são efetivamente ativados os meios de combate. Portanto não importam as condições climatéricas concretas do momento. Se tivermos um mês de junho extremamente quente, como este que estamos a viver, como está fora do período crítico não se faz nada. Já se os meses de julho a setembro forem moderados em termos de temperatura e humidade os meios estão todos disponíveis. Parece caricato se não fosse tão dramático.
Contudo, todos percebemos exatamente o que se tem passado nas últimas décadas:
Portugal tem uma grande área florestal. Porém esta mancha florestal, instalada maioritariamente em terrenos privados cresceu de forma desordenada e ao sabor de interesses económicos. Face aos interesses económicos instalados, a floresta autóctone tem vindo progressivamente a ser substituída por pinheiros e eucaliptos. Muitos pinheiros e ainda mais eucaliptos para abastecer a indústria da celulose (fileira florestal). Por outro lado, face ao êxodo rural, as florestas encontram-se ao abandono e não é feita a sua limpeza e ordenamento. Estão reunidas as condições perfeitas para a catástrofe. Daí à mão criminosa é um simples passo. Mas se o país é um paiol, como é que se consegue evitar que um qualquer frustrado, alcoólico ou desiquilibrado acenda o fósforo fatal? No caso de Pedrógão Grande sobra-nos a triste consolação de parecer não ter havido mão criminosa. Terá sido uma trovoada seca a estar na origem deste incêndio.
O incêndio de Pedrógão Grande salta para a liderança das maiores tragédias nacionais: maior incêndio de que há memória (cerca de 30.000 hectares de área ardida e ainda lavra neste momento em que escrevo estas linhas), 64 vidas ceifadas (nunca antes um incêndio tinha morto tanta gente) e mais de uma centena de feridos. Mais de mil milhões de euros de prejuízo, afirmam alguns.
Entretanto, façamos um paralelo com os Estados Unidos da América, não com os fogos mas com as armas de fogo. Todas as semanas há notícia de mais um tiroteio numa qualquer localidade daquele país, na maior parte das vezes com consequências mortais. Muitos mortos envolvendo armas de fogo. Mortos em escolas, mortos em bairros residenciais, mortos nas discotecas ou mortos nas empresas. E não deixa de ser curioso que todos sabem perfeitamente porque morre tanta gente naquele país. A legislação de uso e porte de arma naquele país é muito liberal. Muitos americanos possuem verdadeiros arsenais em casa. Toda a gente tem enorme facilidade em aceder a armas de fogo. Os resultados estão à vista. Entretanto, o lobby das armas tem conseguido fazer com que todas as tentativas de limitar a venda e uso de armas tenham sido votadas ao fracasso. Lá como cá o problema está identificado. São conhecidas as causas e as formas de resolver o problema. Todos sabem o porquê de tantos incêndios e também sabem que a forma de resolver não é acabar com as florestas, mas proceder ao seu reordenamento sustentável económica e ecologicamente. Substituir muitos eucaliptos por árvores autóctones (carvalho, sobreiro, azinheira, freixo, bétula,...) é urgente. E onde há eucaliptos e pinheiros, quem os explora tem de ser responsabilizado pela sua plantação de forma ordenada, de modo a prevenir os incêndios.
Contudo, nada é feito. Mas o país não pode continuar a arder e inocentes a serem imolados pelo fogo. E os responsáveis políticos a assobiarem para o lado.

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