No tempo em que os nossos pais nasceram

Ideias

autor

Joaquim Gomes

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O mês de setembro caracteriza-se pelo regresso ao trabalho e ao ritmo frenético nas nossas rotinas que nos retira tempo para contemplarmos o essencial do ser humano: a própria vida!
Na atualidade é comum questionamos aspetos simples ou fúteis que deparamos no quotidiano e não valorizamos adequadamente aquilo que temos e aquilo que a geração anterior à nossa, a dos nossos pais, tanto lutou para melhorar!
O que usufruímos hoje e que pouco valorizamos, quer no plano pessoal ou familiar, quer na área da educação, da saúde e das condições gerais de comodidade individual e coletiva, devemos ao trabalho e às conquistas dos nossos pais. Inesquecível é também a liberdade de que usufruímos hoje e que a devemos à luta e perseverança da geração anterior à nossa.
Nada foi fácil para a geração que nos antecede. Geração marcada por débeis infra-estruturas, por fome diária, por pobreza extrema, pela ausência de liberdade!
O ritmo de vida que a sociedade impõe na atualidade, retira-nos tempo para meditarmos, de forma mais aprofundada, na herança que os nossos pais nos deixam, uma herança de bem-estar, de comodidade, de paz e de liberdade!
Basta recuarmos ao tempo em que os nossos pais nasceram (aqueles que nasceram sensivelmente em meados do século XX) para nos depararmos com uma realidade totalmente oposta à atual.
No tempo em que os nossos pais nasceram, em meados do século XX, existia na nossa região uma luta desenfreada pelo alimento e até pela sobrevivência. Verificava-se em Portugal, especialmente no Minho, uma elevada percentagem de população analfabeta, sem qualificações profissionais, com salários baixos, elevada taxa de desemprego e um grande número de caseiros que tentavam retirar da terra o sustento para a sobrevivência familiar.
No tempo em que os nossos pais nasceram, muitas habitações tinham telhados em colmo, um chão em terra, uma cozinha que defumava toda a habitação e camas compostas por tábuas de madeira com colmo a servir de colchão. A casa de banho limitava-se a uma tábua com um buraco, que desaguava diretamente na pocilga!
No tempo em que os nossos pais nasceram, o analfabetismo atingia cerca de 80% da população e a taxa de mortalidade infantil situava-se entre os 150 e os 160 mortos por cada mil crianças!
No tempo em que os nossos pais nasceram, muitos alimentos eram mastigados pelos adultos e posteriormente colocados na boca das crianças que ainda não tinham dentes! As pessoas raramente iam ao dentista e a escova ou pasta de dentes não fazia parte dos hábitos de higiene.
No tempo em que os nossos pais nasceram, o rendimento do trabalho era baixíssimo, sendo pago ao dia, em dinheiro ou em produtos agrícolas. Em meados do século XX, cerca de 70% do escasso rendimento familiar era gasto na alimentação. Os restantes 30% eram despendidos nos cuidados de saúde, na educação, na higiene, nos transportes e, inevitavelmente, no pagamento de impostos à Fazenda!
No tempo em que os nossos pais nasceram, o comércio fazia-se nas feiras ou nas mercearias e as contas eram pagas no final do mês!
No tempo em que os nossos pais nasceram, proliferava a “arte caseira” que tinha como finalidade ajudar os parcos recursos que a agricultura dava à família: os atoalhados bordados, os trabalhos em palha (chapéus), em barro, os fusos e rocas dos camponeses, entre outros.
No tempo em que os nossos pais nasceram, nos meses mais difíceis do ano, os de inverno, não faltavam grupos de pessoas que, de terra em terra, mendigavam uma ocupação, uma ajuda alimentar ou uma esmola!
No tempo em que os nossos pais nasceram, existia muita mão-de-obra feminina pobre, composta por jovens raparigas, mulheres abandonadas, viúvas ou mães solteiras. As mais jovens iam “servir” para a casa dos mais abastados, as restantes obedeciam ao poder religioso (padre) e ao poder político (regedor), na ânsia de receberem deles uma pequena ajuda.
No tempo em que os nossos pais nasceram, a miséria era de tal forma acentuada, que nas épocas em que a fome apertava, eram muitos os que se concentravam às portas das Câmaras Municipais, a pedir trabalho nas obras públicas, a pedir esmolas ou, desesperadamente, a pedir uma sopa ou um pouco de pão!
No tempo em que os nossos pais nasceram, a altura de setembro, que agora se inicia, era ansiosamente esperada, porque significava uma época de colheitas, aproveitada para aliviar um pouco a fome que marcava o ano. Era nesta altura que muitos elementos da família participavam nas vindimas e nas desfolhadas. Era nesta altura, também, que conviviam de forma mais alegre e que aliviavam um pouco os seus estômagos esfomeados.
Os nossos pais nasceram num tempo de miséria social, económica, cultural e política. Deixam-nos uma sociedade muito mais justa, muito mais desenvolvida, muito mais tolerante e muito mais livre. Cabe-nos manter estes valores e tentar melhorá-los para que a próxima geração não volte a sofrer as agruras da vida como no passado!

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