Chamar “politicamente correto” ao que é correto

Ideias

autor

Pedro Morgado

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Ao longo dos últimos anos, os ultra-conservadores e os militantes de extrema direita têm acentuado a sua estratégia de propaganda e endoutrinamento para níveis que colocam em causa os valores da democracia liberal em que assentam as sociedades modernas.
Um dos passos fundamentais para a expansão destas ideologias no espaço público foi a criação de uma novilíngua que permite subverter a realidade, dourando-a de uma forma perigosamente falsa: ultra-conservadorismo e extrema direita chamam-se agora “direita alternativa” (do inglês, Alt-Right); notícias falsas são agora factos alternativos (alternative facts); sensatez, respeito e correção chamam-se agora politicamente correto (political correctness).

Em paralelo, estes fanáticos criaram agências de informação que produzem e difundem notícias que são completamente falsas ou que são apresentadas de forma a distorcer os factos e que têm como objetivo fundamentar a sua tese de que as pessoas de cor de pele branca, heterossexuais e cristãs são superiores às pessoas que não partilham essas caraterísticas.
A estratégia obteve bons resultados eleitorais no Reino Unido e nos Estados Unidos da América, tendo levado à saída dos britânicos da União Europeia e à vitória de Trump nas eleições presidenciais americanas. Em paralelo, verifica-se um aumento da atividade destes movimentos radicais noutros países europeus onde grupos organizados tomam conta de partidos tidos como moderados.

Em Portugal, o ensaio da “direita alternativa” está a ser feito pelo PSD que recentemente decidiu quebrar o amplo consenso democrático da proteção inalie- nável dos direitos humanos e da rejeição generalizada da discriminação em função do género, cor de pele, origem, orientação sexual e religião. Ao escolher a manutenção de um candidato que propõe o regresso da pena de morte e ofende indiscriminadamente em função da pertença a determinado grupo étnico, o PSD testa um perigoso modelo narrativo que poderá ter consequências inimagináveis.
Não está em causa que o candidato tenha direito a proferir afirmações injustas e erradas que os fascistas dizem ser suas. O que se censura é que o PSD valide um candidato destes, ignorando a própria tradição do partido na defesa dos valores da democracia liberal.

Mas há mais sinais à vista de todos. Sempre que alguém ofende um grupo de pessoas que partilha uma característica como género, cor de pele, origem, orientação sexual ou religião, uma horda de comentadores da direita alternativa (quase todos sedeados no Observador a que se somam João Miguel Tavares, no Público, e Henrique Raposo, no Expresso) atiram invariavelmente contra aqueles que criticaram a ofensa, acusando-os de limitarem a liberdade de expressão dos fanáticos. Como se a ofensa, a ignomínia e a injustiça devessem ter espaço protegido no debate público.

Na verdade, temos visto demasiada gente que se indigna quando racistas, homofóbicos, machistas e nazis são repreendidos em público (alegando que está em causa a sua liberdade de expressão) mas não se manifesta quando racistas, homofóbicos, machistas e nazis assassinam alguém. Mascaram-se de moderados para defender racistas, homofóbicos, machistas e nazis a pretexto de que estes não se podem exprimir livremente mas, na verdade, o que pretendem é legitimar (e sancionar) a expressão dos seus ideais, favorecendo a expansão do ultra-conser- vadorismo e da extrema direita.

Os tempos são exigentes e os desafios extraordinariamente difíceis para todos quantos acreditam e defendem a democracia liberal. É que a sensatez política não tem a desfaçatez dos fanáticos, a correção no discurso público não tem a flama das narrativas discriminatórias e agressivas, a realidade dos factos não tem o sensacionalismo das notícias falsas e a construção permanente e dinâmica de uma sociedade livre, diversa e tolerante não tem o charme das sociedades totalitárias que os ultra-conservadores idealizam.

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