Um Verão que foi uma tragédia!

Ideias

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Artur Coimbra

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1. Este Verão que ainda dura mais umas duas semanas, ao contrário da positividade que lhe está associada, por via das férias generalizadas e do regresso de milhares de emigrantes, foi fortemente marcado por um conjunto de catástrofes que não deixaram ninguém indiferente. Este ano, mais que nenhum outro, parece-me.
Desde logo, os fogos florestais, esse flagelo tremendo que todos os anos castiga as nossas matas e para o qual, por muitos diagnósticos que se façam, não se tem encontrado o antídoto adequado. O ardeu, inclementemente, sem dó nem piedade, a cargo de pirómanos dementes. 
Houve semanas em Agosto em que se contabilizaram mais de 2 000 incêndios por todo o país, cerca de 40% dos quais começaram no período nocturno (deve ter sido a lua a brilhar nos vidros das florestas e a atear as chamas…) e que mobilizaram milhares de operacionais e de meios terrestres e largas dezenas de meios aéreos.
Os incêndios florestais consumiram este ano mais de 213 mil hectares, o valor mais elevado nos últimos dez anos e duas vezes mais do que a média anual de área ardida para o mesmo período, relatou a imprensa por estes dias. É impressionante e assustador, com as consequências a todos os níveis daí decorrentes, desde as económicas às ambientais e até turísticas.
Todos os anos tem sido assim, desgraçadamente. Sobretudo quando a temperatura sobe e a humidade baixa consideravelmente. Por responsabilidades várias, ao que se diz. Por culpa do estrutural desordenamento do território, da falta de prevenção e de limpeza das matas e florestas, privadas e públicas, de uma indústria do fogo que tem interesse em vender material para o combate aos incêndios e de uma justiça demasiado branda para crimes que lesam a economia nacional e o ambiente, que é um bem colectivo. E que provocam imenso mortos e feridos, de que o expoente máximo foram as 64 vítimas mortais em Pedrógão Grande.
Além disso, registam-se mais de duas centenas de feridos, alguns em estado grave, entre bombeiros (a maioria), militares da GNR e civis.
Portanto, não estamos a falar apenas de poderosos danos económicos e ambientais, mas também humanos, por quem está no teatro de operações a tentar debelar o que os criminosos à solta andam a atear.
Por outro lado, lê-se e não se compreende, olhando para as dimensões colossais da tragédia dos fogos que todos os anos arrasa as nossas florestas, causando custos globais inimagináveis. Falamos da impunidade dos incendiários. Soube-se por estes dias que em Portugal, os incendiários raramente vão parar à prisão. E pormenoriza-se: de 2001 a 2015 apenas 48 incendiários foram condenados a pena de prisão efectiva. Em 2016, a maioria dos inquéritos abertos pelo crime de incêndio florestal acabou arquivado e apenas 3% chegou a julgamento.
Ou seja, 97% dos implicados no terrorismo do fogo, independentemente das razões, não sofrem as mínimas consequências dos seus actos. Mas que país desculpabilizante, irresponsável, com leis demasiadamente brandas, é este?
Sem receio do politicamente incorrecto, há que reforçar e endurecer as penas para os incendiários e criminosos que andam à solta em cada ano que passa. 
Seja quem comete tais crimes por encomenda, por problemas mal resolvidos, por gostarem de ver o espectáculo, pela paranóia de toda a espécie dos incendiários. Terá que haver mão pesada da Justiça para desincentivar comportamentos criminosos e terroristas.
Por outro lado, e nunca é demais reiterar: está a chegar a altura de prevenir a praga dos incêndios do próximo Verão. É no Inverno que se atacam as causas e se previnem as desgraças da campanha de fogos florestais que, nada sendo feito, voltarão no próximo Verão, tão inexoravelmente como um relógio suíço!

2. Como também normalmente acontece, a tragédia de Pedrógão Grande foi explorada e aproveitada politicamente pela direita, neste caso, que procurou tirar dividendos das eventuais falhas ou erros que aconteceram no teatro de operações. Como se falhas ou erros fossem intencionais, ou se, mudando os actores, os problemas magicamente se evaporassem… Num dia, pedia a cabeça da ministra da Administração Interna, no outro a do Secretário de Estado. No outro, a de toda a Protecção Civil. Só faltou pedir a de S. João, como a Salomé!...
É o pior que pode acontecer, a tentativa de capitalizar partidariamente a desgraça, o luto e a morte. Bem o viu e denunciou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que tem mostrado uma assinalável equidistância em relação ao universo partidário de onde provém. O que significa isenção, justiça, capacidade de discernimento e de avaliação política acima de qualquer suspeita. O que se aplaude e felicita, quando, na verdade, contribui para a estabilidade e a permanência de soluções políticas que claramente estão a beneficiar o país e o povo português! Ou não será por essa mesma razão que tanto alarido se faz de uma tragédia imprevisível, incalculável, inesperada, como a que aconteceu há dois meses no centro do país?

3. Uma fulminante calamidade que não pode ser olvidada aconteceu na Madeira no dia 15 de Agosto. Uma árvore centenária caiu no Largo da Fonte, na freguesia do Monte, num local onde decorria a festa da Padroeira da ilha e onde estavam concentradas dezenas de pessoas, matando treze e ferindo 52, de diferentes nacionalidades, doze das quais ficaram em estado grave. Uma enorme tragédia a enlutar novamente o país, depois das desgraças decorrentes dos fogos florestais que dizimaram o território.

4. E finalmente, como não há duas sem três, o fanatismo sanguinário espalhou o terror e a morte, em pleno Agosto da alegria e do turismo, nas Ramblas, mítica avenida de Barcelona (Espanha), quando uma carrinha atropelou deliberadamente vários pedestres que passeavam calma e descontraidamente naquele local. No dia e nos seguintes, morreram 16 turistas, incluindo duas portuguesas que acabavam de chegar a Barcelona, deixando ainda cerca de 130 pessoas feridas, 17 das quais em estado crítico. Foi mais um ataque terrorista desses bárbaros que se acobertam e acobardam em torno do autoproclamado 'Estado Islâmico', uma das ameaças maiores e mais perigosas à liberdade e à segurança da civilização ocidental.
A todos nós: não pensemos que estamos livres desses selvagens e das suas acções de terror sanguinário. Um Verão para esquecer, sem dúvida! Ou não!

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