Melhoramento Físico radical, porquê e para quê?

Ideias

autor

João Ribeiro Mendes

contactarnum. de artigos 47

Na crónica de há 15 dias retomei a definição minimalista da expressão “Melhoramento Humano” (MH) proposta por Julian Savulescu et alii em Enhancing Human Capacities (2011) como referente a “aplicações ou atividades concebidas para de modo temporário ou permanente melhorarem seres humanos de diferentes modos, em vez de apenas repararem danos”.
Ora, entre os “diferentes modos” nela aludidos, que correspondem a categorias básicas de MH, contam-se os seguintes: Melhoramento Físico (MF), Melhoramento Cognitivo, Melhoramento Emocional, Melhoramento Moral e Prolongamento da Vida.

Querendo aqui atentar particularmente no primeiro dos modos acabados de elencar, e recorrendo ainda ao supra referido livro, pode dizer-se, com Søren Holm e Mike McNamee (v. capítulo 21), que o MF, em termos gerais, envolve “qualquer desenvolvimento que melhore uma função física do corpo humano, sem provocar efeitos colaterais prejudiciais”.
Entenda-se que, nos termos da definição mais genérica, a de MH, “melhorar” não significa simplesmente reabilitar, propósito somente terapêutico, mas ir além desse fito e habilitar, aumentar.

Por extensão, devolver a visão perdida a um olho não constitui um exemplo de MF, mas incorporar num olho normal a capacidade de detetar infravermelhos ou criar um olho biónico num cego de nascença, sim. Alguns, como Nicholas Agar, preferem falar antes de MH (e MF) “radical” por acharem que torna mais explícito o objetivo de dotar indivíduos de capacidades que transcendem as que são típicas da espécie.

Podem identificar-se cinco domínios onde o MF radical é especialmente buscado: no desportivo, com o objetivo de au- mentar o rendimento atlético e, em última instância, alcançar a excelência competitiva; no estético, visando aumentar a atratividade e capacidade de sedução, em prol do fortalecimento da autoimagem e da autoconfiança e predomínio sobre terceiros; no militar, para robustecer as aptidões para o combate dos soldados e, derradeiramente, a submissão de inimigos; no sexual, almejando elevar a qualidade dos relacionamentos íntimos e propiciar experiências de prazer mais intenso; no laboral, para aumentar o desempenho no trabalho e possivelmente obter maiores proventos financeiros.

Como o MF radical - tal como as demais modalidades de MH - depende de tecnologias emergentes, exemplos emblemáticos em cada um dos domínios seriam: a cirurgia LASIK de moldagem da córnea com um laser para obter visão 20/20 nos golfistas, implantes mamários infláveis e reguláveis, exosqueletos robóticos ultraligeiros que tornam os combatentes superfortes e super-rápidos, implantes subcutâneos e tatuagens eletrónicas erógenas, próteses oculares para os trabalhadores receberem mais informação mais diretamente e mais depressa.

Apesar da variedade dos domínios, da diversidade dos propósitos e da multiplicidade dos meios, isto é, das tecnologias de MF, uma finalidade parece subordina-los e conferir-lhes unidade: transformar o corpo humano num sistema componível, atualizável, ciborguizável ou, melhor seria dizer, ter esse poder emancipatório, que representaria, no fundo, uma forma mais de liberdade positiva, de autorrealização, que de liberdade negativa, de atuação dentro dos limites do naturalmente imposto; mas, bem vistas as coisas, essa finalidade é apenas preparatória de outra mais extrema e, por conseguinte, de muito maior alcance e mais vastas consequências antropológicas: redesenhar o humano, repensá-lo a fundo, projetar o seu sucessor, o “trans” ou o “pós-“ humano.

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Ideias

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia