Educação e mobilidade social

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Margarida Proença

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Numa entrevista de Arundhati Roy, publicada no Público a 8 de setembro de 2017, a escritora afirma, a dada altura que “em primeiro lugar, é preciso recuperarmos uma decência fundamental como seres humanos, que, no mínimo, sonham com justiça”. Acrescentava ainda que as pessoas tinham começado a confundir o sistema democrático com eleições, sendo que, na sua opinião, uma democracia saudável e forte é muito mais do que uma simples ida ás urnas, exige uma base de sustentação onde o sistema de educação, entre outros vetores, é fundamental.
Vem isto a propósito das referências recentes a um estudo sobre mobilidade social em Portugal, da responsabilidade da Fundação Francisco Manuel dos Santos, de que foram divulgadas as conclusões gerais.

A mobilidade social pode ser entendida sob duas perspetivas - intergeracional, comparando as circunstâncias individuais com as dos seus pais, e intra- geracional, ou seja tendo em conta as alterações que vão, ou não, ocorrendo ao longo da vida, comparando, por exemplo, o primeiro emprego que se teve com aquele que se tem atualmente.

Quanto maior for a associação entre a situação socioeconómica de cada um com a dos seus pais, numa determinada fase da vida (por exemplo, com 35 anos), menor é a mobilidade social.
Em termos absolutos, a mobilidade social reflete as mudanças que vão ocorrendo na economia e nas sociedades, em termos tecnológicos e culturais, e que se traduzem por exemplo numa importância claramente crescente das profissões no setor dos serviços, mais exigentes em termos educacionais e qualificacionais; foi o resultado da industrialização e do progresso tecnológico.

Crescimento económico, mais educação e mais oportunidades de melhor emprego permitiram “uma maré crescente empurrando os barcos”, nas palavras do Presidente Kennedy , citadas num estudo que vale a pena ler sobre mobilidade social na União Europeia (Eurofound, 2017). No entanto, os efeitos positivos dessa maré têm vindo a tornar-se cada vez menos claros, e a gravíssima crise que começou em 2007 contribuiu para aumentar as desigualdades. Os dados estatísticos mais recentes apontam que, em geral, a mobilidade social no sentido superior tem vindo a diminuir na U.E, principalmente no que diz respeito aos homens.

A mobilidade social também tem de ser entendida em termos relativos, e de facto isso é mais importante para cada um de nós. Independentemente do sentido das grandes alterações que se vão registando na sociedade, significa saber qual é a probabilidade de cada um de nós vir a ter uma ocupação, um rendimento que nos coloque numa situação claramente melhor do que os nossos pais. Todos conhecemos histórias de sucesso; pessoas que foram os primeiros na sua família a completarem uma formação universitária, e que aos 35- 40 anos, detêm já posições profissionais importantes, com níveis de rendimento e condições de vida superiores ao dos seus pais.

Em Portugal, quem tem o ensino superior ganha , em média, o dobro de uma pessoa com o 3.º ciclo ou menos, e em termos sociais, o reconhecimento implícito da importância relativa da mobilidade social justifica a permanência do tratamento de “Drº”, em desuso por toda a Europa, mas que funciona ainda como uma espécie de “selo de classe”. No entanto, e embora tenha havido progressos, principalmente no caso das mulheres, a maioria dos portugueses continua -hoje - a ter uma profissão equiva- lente à dos seus pais.

Dir-se-ia que, apesar das alterações ocorridas na sociedade portuguesa, continua a ser mais provável que o abandono escolar se verifique em famílias com rendimentos mais baixos. Em Portugal, a taxa de abandono escolar situava-se, em 2016 nos 14%, mais do que a média da União Europeia; mais de metade dos jovens (53%) não completou o ensino secundário. Se comparamos o que se passa nas famílias dos 20% mais ricos, com o que se passa nas famílias dos 20% mais pobres em termos de escolarização, a diferença é brutal: 58% dos mais ricos têm o ensino superior, face a apenas 5% dos mais pobres.

A crise seguramente piorou as coisas; e olhando para o futuro, com o impacto tecnológico da robotização e automação no mercado de trabalho, vai ser cada vez mais importante ter pensamento crítico e uma formação académica e profissional exigente e contínua. Ora a estrutura ocupacional em Portugal ainda apresenta um peso significativo de profissões não, ou pouco, qualificadas.

Ainda que as coisas tenham, de facto, melhorado, traduzindo alterações decorrentes da mobilidade social em termos absolutos, o estatuto sócio económico do pai, profissão e o rendimento que tem, continuam a ser importantes: 57% dos nascidos entre 1970 e 1985 têm hoje um nível de escolaridade semelhante ao dos pais, e 51% uma profissão equivalente, de acordo com o estudo da Fundação Manuel dos Santos.

Neste início do ano letivo, é sempre importante lembrar a importância que a educação tem em termos individuais , nomeadamente em termos da posição relativa em que virá a colocar as pessoas no mercado de trabalho face aos outros. E depois, o que passará aos filhos.

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