O homem que foi preso em Braga por ver a procissão de chapéu na cabeça

Ideias

autor

Joaquim Gomes

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Não é novidade dizer-se que Braga tem uma história particular, no que concerne aos costumes e aos valores da sua gente.
Numa cidade profundamente católica (basta verificarmos apenas no centro da urbe as igrejas monumentais que proliferam) é comum dizer-se que “Braga reza, o Porto trabalha, Coimbra estuda e Lisboa diverte-se”. Ora, uma das evidências deste relato surge num episódio verdadeiramente caricato que ocorreu em julho de 1877.
Tudo aconteceu num domingo, dia 15 de julho, aquando da realização da procissão de Nossa Senhora das Angústias que saiu da igreja de S. Victor. Este era um cortejo que atraía muitas fiéis e o andor de Nossa Senhora das Angústias era precedido por um numeroso “côro de virgens”, que eram ladeadas por muitos “anginhos” meticulosamente vestidos para esta procissão.
Então, no momento em que a procissão desfilava pelo então Campo de Santana, atual Avenida Central, verificou-se um episódio caricato. No meio da multidão, encontrava-se o senhor A. J. Fernandes Lage, domingueiramente trajado e protegido do sol com o seu chapéu na cabeça. Quando a procissão se aproximou do local onde se encontrava o referido homem, este não retirou o chapéu, contrariamente ao sinal de respeito convencional, o que causou espanto nos fiéis presentes. Nem mesmo à passagem do pálio, debaixo do qual se encontrava a imagem de Nossa Senhora das Angústias, o homem manteve-se firme e não retirou o chapéu da cabeça! Perante este comportamento, alguns fiéis manifestaram a sua indinação, mas este respondeu “desabridamente que estava muito á sua vontade, e que por isso não tirava o chapeu”. (1)
A agitação depressa se apoderou dos fiéis que o cercaram de forma provocatória. Os ânimos ficaram de tal forma descontrolados que foi necessária a intervenção da força policial ali presente, que de imediato deu ordem de prisão a A. J. Fernandes Lage!
Este tema, que causou forte indignação popular, foi muito comentado em Braga, não só nesse dia mas também nos seguintes e tudo porque um homem não tirou o chapéu, num dia de verão, à passagem da procissão de Nossa Senhora das Angústias!
Dois dias depois do sucedido, o jornal “Commercio do Minho” referia que “o snr. A. J. Fernandes Lage persuadiu-se, pelos modos, que uma procissão é uma entrudada, que a lei é uma entrudada, e que tudo, excepto elle, não passa de entrudada”! Esse homem, considerado na época indigno, desrespeitoso e mal-educado, aproveitou a passagem da procissão religiosa para “afirmar d’um modo inconcusso: - ou a sua anormalidade d’elle, ou a sua má creação, ou a sua irreligiosidade”!
Por ter este comportamento, foi justamente preso, porque se “apresentou a ver a procissão com todo o desplante, de chapeu na cabeça”!
Este comportamento firme dos bracarenses, perante o homem que tinha um chapéu na cabeça à passagem de uma procissão religiosa, prova a grande devoção que esta população tem para com a Igreja Católica! Com esta atitude, estes faziam ver ao resto do país que Braga respeita plenamente os valores católicos o que a tornam numa cidade exemplar no país!
Recorde-se que, quando este homem foi preso em Braga, vivia-se em Portugal a época da “Geração de 70”, onde em Coimbra, num ambiente descontraído, Antero de Quental, Eça de Queiroz, Oliveira Martins e Ramalho Ortigão, e outros intelectuais como Teófilo Braga, Guerra Junqueiro, Guilherme de Azevedo ou Batalha Reis, discutiam entre si a modernidade da sociedade portuguesa, usando a ironia e a sátira.
Dez anos antes de este homem ser preso por não tirar o chapéu à passagem de uma procissão religiosa em Braga, o francês Victor Hugo felicitou Portugal pela abolição da pena de morte, então uma das grandes preocupações da humanidade.
A época em que este homem foi preso, à passagem de uma procissão religiosa em Braga, por não tirar o chapéu, Portugal esforçava-se por sair do marasmo social e cultural em que se encontrava. Saber ler e escrever era importante para alguns cidadãos portugueses; a maioria dos políticos da época preocupava-se em escrever textos para jornais ou publicar os seus discursos políticos.
A época em que este homem foi preso, à passagem de uma procissão religiosa em Braga, por não tirar o chapéu, o nosso país atravessava uma verdadeira revolução dos transportes, principalmente a nível dos caminhos-de-ferro. O comboio tinha chegado a Braga dois anos antes (1875) e encurtado distâncias físicas e económicas, mas também sociais e culturais.
Na época em que este homem foi preso, Jaime Batalha Reis, cônsul de Portugal em Londres, considerou Portugal o país com mais liberdade no mundo.
Mas nessa época, em Braga, um homem foi preso por não tirar o chapéu, à passagem da procissão de Nossa Senhora das Angústias!
1) “Commercio do Minho”, de 17 de julho de 1877

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