O exemplo de Alexandra

Ideias

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Carlos Pires

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As pessoas regressaram ao trabalho. Os alunos também. Setembro, o meu mês preferido, porque é quando tudo verdadeiramente reinicia e se renova, já vai a meio. A “silly season” supostamente terminou. Este ano além de “silly” a “season foi intoxicante”. Pior do que os hectares ardidos foram as vidas perdidas - 65 ou 66. Não poderemos nunca mais esquecer as imagens e os relatos, é impossível. Muitas falhas e desorganização de quem tem a função de proteger vidas e falhou, incompreensivelmente.
Entretanto, há tanta coisa a acontecer.

Há um louco com aspirações nucleares na Coreia do Norte, colocando em estado de “sítio” o Japão, o país a afundar. Há uma discussão em curso na União Europeia à volta dos destinos desta, com o Reino Unido no epicentro. E ao nosso lado temos uma Espanha com uma situação explosiva na Catalunha, que há muito reclama independência. Há um autarca em Lisboa visado pelo assunto habitual - suspeitas em redor de avultado património imobiliário. E há os hospitais que paralisaram na semana passada porque a esmagadora maioria dos enfermeiros não trabalhou e ameaça repetir a dose lá para inícios de Outubro. Há ainda um conhecido cantor pimba de nome Tony acusado de plagiar 11 músicas de autores estrangeiros. Há uma avó que irá ser a (primeira) barriga de aluguer, de um neto. Ah, e dizem que há turistas a mais.

E há a história corajosa de Alexandra, a jovem estudante portuguesa de Direito, emigrada em Londres, que enfrentou e venceu em tribunal um consórcio britânico de advogados, para ajudar uma nossa compatriota, de 69 anos, a receber indemnização de 200 mil euros.
Ângela Baptista, natural da Madeira, não sabe ler nem escrever e vive sozinha em Inglaterra há mais de 40 anos. Em 2006 foi atropelada naquele país, tendo ficado com incapacidade física parcial.

Passados sete anos foi indemnizada, mas a sociedade de advogados que lhe tratou do caso invocou a sua incapacidade mental, para reter a indemnização e passar também a administrar todos os seus bens. A idosa tentava desde 2013, sem êxito, reverter a situação, até que conheceu casualmente a Alexandra, natural de Viana do Castelo, jovem aspirante a advogada. Depois de ouvir a sua história e mesmo sem ter concluído o curso de Direito, a estudante disponibilizou-se a ajudá-la. Apresentou provas de que Ângela se encontra mentalmente sã e requereu que fosse ordenada aos advogados a restituição dos seus pertences. A sentença favorável à sexagenária saiu há dias.

Esta é a história com que decidi reabrir este espaço de opinião e de partilha com os meus leitores, após férias. E por várias razões. Primeiro, porque há uma jovem que luta por uma causa nobre, por valores maiores, com altruísmo e com solidariedade. E luta com paixão, obtendo o resultado pretendido.
Só luta desta forma quem no passado já percebera que a vida não é só facilidades. Alexandra emigrara com os pais e cedo enfrentara as adversidades de chegar a um país com língua e cultura diferentes, conforme resulta de vários depoimentos seus.

“Por vezes, quando ia na rua, tinha sede e pedia um copo de água. A minha mãe respondia-me:
- vais tu lá pedi-lo ou não bebes’.
E eu deixava que toda a gente passasse à minha frente, porque ainda estava a pensar que palavras deveria utilizar.”

A jovem Alexandra cedo aprendeu a correr atrás de um objetivo, lutar por um fim. Replicou essa forma de atuar quando se comovera com a história de Ângela e decidira ajudá-la. Hoje sente-se feliz e realizada; recebe inúmeras propostas de trabalho e é reconhecida na comunidade.
Um exemplo. Um exemplo para tantos e tantos jovens que à nossa volta pululam, agarrados aos telemóveis e às aplicações informáticas, sem interação humana e com tudo na vida tão facilitado, amorfos, incapazes de lutarem por algo. Um exemplo ainda para tantos de nós, adultos, muitas vezes sem ânimo, como se tivéssemos desistido e incapazes de lutarmos por aquilo em que acreditamos, incapazes de ajudarmos o próximo.
Bom recomeço de vida para todos!

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