Ruralidades: o desafio demográfico

Escreve quem sabe

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Hilário de Sousa

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“Ruralidades” é o tema de uma exposição de fotografia, da autoria de Beatriz Rodrigues, a inaugurar no próximo dia 23 de setembro (sábado), às 16.00 horas, na Casa do Professor. Imagens que não são possíveis de alcançar pelo olhar de quem se limita a ver, mas apenas por quem sente, porque são quadros captados - recorrendo a uma clarividente expressão da autora - “com uma lente muito especial e infalível: o coração!”

A artista é uma apaixonada pelas paisagens e pelas pessoas do campo. As mais velhas. Aquelas a quem a terra fez calos, tornou rija e negra a pele e cujos rostos, marcadamente enrugados, contam um percurso de vida palmilhado com inúmeros sacrifícios e muita fé. Aquelas que só são lembradas por inqualificáveis oportunistas quando os incêndios as vão depauperando, ano após ano, simplesmente porque não há interesse em que se extinga este flagelo. Aquelas que, ainda assim, teimam em saborear com gratidão os frutos das sementes que lançam sucessivamente à sua terra! As mesmas mãos que têm o poder de transformar a terra estéril. Aquelas que, apesar de todas as contrariedades, são felizes!

Quadros de ruralidade foi também o que se pôde vivenciar durante os últimos dias na 4.ª edição da Semana do Mundo Rural, iniciativa que decorreu até ao passado domingo no centro de Braga. Uma mostra que pretendeu aproximar e valorizar as atividades e tradições agrícolas, etnográficas e artesanais do concelho. Um inegável exemplo de valorização das lides quotidianas de um povo que labuta arduamente. Um povo detentor de uma riqueza cultural que muito orgulha a cidade, a região e o país. Um povo que “tão-só” se integra num setor de atividade económica que é absolutamente determinante para um futuro sustentável.

Estes exemplos de louvável aproximação ao conhecimento sobre a vida rural e de sensibilização para esta realidade, simultaneamente tão próxima e tão distante, representam apesar disso o passado e não o presente, não nos devendo como tal distrair de uma reflexão mais profunda, que vá além destes quadros mais ou menos pitorescos, considerando que o verdadeiro desafio do país neste século reside na diminuição sucessiva da população do interior e, transversalmente, do meio rural. O envelhecimento demográfico, a incapacidade de fixação das pessoas e o êxodo rural que se fazem sentir há várias décadas estão a reforçar as já de si fortes assimetrias regionais do país e as tendências de desertificação em mais de 50% do território nacional.

Numa perspetiva global, enquanto se prevê que o acentuado crescimento urbano a nível mundial, segundo um relatório da ONU de 2014, tenha lugar nos países das regiões em desenvolvimento, sobretudo em África, criando seriíssimos problemas na gestão das cidades, o maior drama no nosso país centra-se na desertificação do interior, associada à redução da natalidade. Olhando pela ótica dos desequilíbrios demográficos na convencional relação urbano/rural, a apresentação de quadros de ruralidade e de tradições associadas não pode por isso ofuscar dinâmicas que estão a aniquilar o mapa rural.

Num Portugal de acentuadas desigualdades, importa contrariar algumas das opiniões “urbanocêntricas” que por vezes enformam as visões dominantes e julgam que no interior há apenas lugares visitáveis e não habitáveis. Ora, a condição essencial para se inverter a saída de jovens das zonas rurais passa pelo desenvolvimento económico, captação de investimento e criação de emprego, olhando estrategicamente o país numa perspetiva transversal e não vertical.

A pertinência deste tema num período de debate autárquico, e pese o facto de haver em territórios rurais diversos fatores de atração, forte enraizamento, boas condições naturais, sociais, culturais e económicas, assim como acessibilidades, dinâmica associativa, coesão social e qualidade devida, não há capacidade de fixação, porque não há oportunidades de emprego compatível com as habilitações escolares e profissionais dos jovens, capazes de possibilitar localmente a realização das suas aspirações.

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