Descer à realidade terrena

Ideias

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Jorge Cruz

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Os dados divulgados há dias pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmam o bom momento da economia portuguesa, uma vez que asseguram que no primeiro semestre deste ano se registou maior crescimento e também menor défice.
Trata-se, obviamente de uma excelente notícia para os portugueses os quais, aliás, já tinham sido positivamente surpreendidos quando uma das principais agências de rating, a S&P (Standard and Poor’s), curiosamente aquela a quem o anterior governo suspendeu o contrato, procedeu à melhoria da classificação de Portugal. A S&P foi, assim, a primeira das três grandes agências a retirar a notação de “lixo”, recolocando a classificação de risco de Portugal em “investimento de qualidade”.

Claro que estas boas novas são, permita-se-me a expressão, música para os ouvidos do governo e, concomitantemente, para a generalidade dos portugueses, afinal aqueles que mais sentem os benefícios deste bom desempenho económico. Mas a “festa” dos números, o júbilo pela demonstração de que afinal era possível, desejável e necessária uma política alternativa à austeridade cega do governo da coligação de direita, pelos vistos não agrada a todos.
Na realidade, os bons resultados aparentemente não impressionaram o antigo Primeiro-ministro, o qual, e à semelhança do que ocorreu em outras situações similares, preferiu assumir uma postura permanentemente crítica, uma posição de negação da realidade.

À luz dos factos políticos ocorridos há dois anos, percebe-se, embora seja democraticamente inaceitável, que Passos Coelho não se tenha impressionado e muito menos regozijado com o crescimento de 3 por cento ou sequer com o défice de 1,9. Não nos podemos esquecer que o antigo Primeiro-ministro nunca logrou ultrapassar os momentos traumáticos vividos em 2015… Portanto, desse ponto de vista, a postura do ainda líder do PSD não surpreende minimamente o cidadão mais atento. Em todo o caso, a um ex-governante com as responsabilidades de Passos Coelho, que além do mais é líder da oposição, impunha-se uma postura mais consentânea, mais democrática, se quisermos.

Afirmar que “os dados divulgados pelo INE não trazem grande novidade, no sentido em que não revelam um resultado que não fosse esperado”, é uma infame tentativa de desvalorizar um conjunto de políticas que, deve acentuar-se, tinham sido condenadas à partida pelo autor de tais afirmações. Condenadas por romperem com as políticas liberais e de grande austeridade tão do agrado do anterior governo. E nem os bons resultados da sua aplicação, como agora mais uma vez ficou demonstrado, levam o ex-Primeiro-ministro a reconhecer os méritos dos seus adversários políticos, afinal a descer à realidade terrena.

Todos se recordam das previsões mais ou menos catastróficas de Passos Coelho (e, já agora, de alguns dos seus apaniguados mais próximos), algumas das quais aventavam mesmo a chegada do “diabo”. Não veio, como é público e notório. Ao invés, em lugar do mafarrico surgiram melhorias nas condições de vida de muitos portugueses, designadamente daqueles que foram vítimas das políticas do governo PSD/CDS, melhoria que, como os dados oficiais demonstram, ainda foi acompanhada por animadores indicadores económicos.

Esta será, porventura, a razão para a incomodidade de Passos Coelho. Desconforto que o levou, inclusivamente, a tentar minorar os números conseguidos pelo governo do PS ao mesmo tempo que procurou valorizar o seu próprio desempenho no último ano em que foi Primeiro-ministro. E a dizer coisas tão disparatadas como “eu estou muito confortável, quem está hoje no governo é que estará aflito”, ou a contradizer-se quando afirma que “a preocupação agora é saber se para o ano conseguimos manter um balanço ainda maior ou não. É esse o desafio.”

Creio que não será difícil intuir que o desespero se apossou definitivamente de Passos Coelho. As constantes provas de vida com que nos tem brindado, sob a forma de intervenções políticas mais ou menos descabidas, têm a ver com as próximas eleições autárquicas mas também se destinam a apaziguar uma parte do eleitorado do seu partido. É que não nos podemos esquecer que ainda antes das legislativas de 2019 se realizarão as directas para a presidência do PSD. E, como já se percebeu, Passos Coelho tem muita vontade de se manter à tona da água para tentar ser o candidato do seu partido nas próximas legislativas. Será ainda possível ou o personagem já está politicamente morto e ainda ninguém teve a coragem de lhe dizer frontalmente?

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