O Metrónomo de Praga

Ideias

autor

João Ribeiro Mendes

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Tive a oportunidade de visitar pela primeira vez na semana passada Praga, a capital da República Checa. Foi uma experiência encantadora deambular pelas ruas da pérola da Boémia que inspiraram a música de Smetana e Dvorák ou os romances de Kafka e Rilke, degustar uma marlenka no Hotel Imperial Art déco ou saborear um trdelnik enquanto os olhos fixados no Orloj (o relógio astronómico medieval) da Staré Město (velha urbe) ansiavam pela “caminhada dos apóstolos” feita a cada hora.

Todavia, na “cidade dos cem pináculos”, como alguém lhe chamou (na verdade 103, segundo as contas do célebre matemático Bernard Bolzano, nela nascido), o que especialmente atraiu a minha atenção foi um metrónomo, situado na colina do Parque Letná, na margem esquerda do Moldava, o rio que a banha, perto da mais pequena ponte que o atravessa, a Čechův.
Ele cumpre a função dos demais aparelhos desse tipo: medir o tempo e marcar o compasso das composições musicais; mas com os seus 23 metros de altura é bem mais do que isso: um monumento carregado de simbolismo histórico e político.

Com efeito, ele foi ali colocado com a intenção de fazer esquecer outro que em tempos aí foi plantado: a enorme estátua (com mais de 15 metros de altura e 22 de comprimento) de homenagem a Josef Stalin, onde este aparecia a liderar um grupo de proletários, imponente massa granítica que o olhar crítico dos habitantes de Praga logo apelidou de “fronta na maso” (fila para a carne), em razão, supostamente, da imperante escassez de bens na Checoslováquia de então, fronteira da cortina de ferro soviética.

Este último teve uma curta existência, pois, sete anos passados desde a sua inauguração, em 1962, no consumar da “destalinização” khruschoviana, foi dinamitado, tendo mesmo alguns assegurado que o primeiro bloco de granito a soltar-se e a rolar pela colina até mergulhar e afundar-se no Moldava foi a cabeça do ditador.
Durante quase quatro décadas o lugar da estátua explodida permaneceu vazio, mas, ao mesmo tempo, disponível para receber novo inquilino que definitivamente obliterasse a memória do primeiro.

Só em 1991, dois anos após a “revolução de veludo” e o rompimento da Checoslováquia com a ex-URSS - e dois anos antes do “divórcio de veludo” com a separação entre a República Checa e a Eslováquia - é que, fruto da imaginação do artista cinético Vratislav Karel Novák, surgiu aí o referido metrónomo de cor vermelha, possivelmente para simbolizar a agonia ou o fim do comunismo, uma vez que o instrumento é algo disfuncional, apresentando-se muitas vezes imóvel ou, quiçá, o sangue derramado em nome dessa ideologia.

Ao contrário do autor da obra arrasada, um tal Otakar Švec, que se suicidou no dia anterior à sua inauguração, envergonhado com ela, Novák viu na sua uma conseguida expressão plástica da ideia de conectar o passado, o presente e o futuro da cidade de Praga, de ritmar a democracia que a República Checa vem experimentando desde há quase trinta anos - e cujo primeiro ensaio havia sido feito pelo pai fundador da Checoslováquia, em 1918, Tomáš Masaryk -, de não deixar que os praguenses e os turistas se esqueçam que o tempo histórico flui inexoravelmente.

Pela posição geográfica que ocupa, o Metrónomo de Praga é também um miradouro privilegiado para abarcar com a visão a cidade inteira, por vezes envolta, em especial de madrugada, numa atmosfera brumosa que estimula a invenção de mitos como o do Golem antropoide.
Ele é, enfim, uma sublime manifestação de um modo irónico de encarar a vida.

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