Quem manda é o regedor!

Ideias

autor

Joaquim Gomes

contactarnum. de artigos 160

Realiza-se hoje o julgamento popular daqueles que, nos últimos anos, lideraram as autarquias locais, bem como a aceitação, ou não, de novas propostas eleitorais dos candidatos a cargos políticos autárquicos. O resultado desse julgamento, conhecido mais logo à noite, irá provocar ondas de euforia a uns e marés de tristeza a outros.
Como nos apercebemos nas últimas semanas, atualmente as candidaturas são livres e os eleitores baseiam-se em programas eleitorais, mas nem sempre foi assim. Durante 140 anos, o nosso país foi gerido pelo “regedor” que, para além da administração da sua terra, impunha também a ordem às populações.
Recorde-se que o Código Administrativo de 1836 veio substituir o comissário de paróquia pelo regedor. Os regedores garantiam, no território da freguesia, a aplicação das leis e dos regulamentos administrativos e exerciam também a autoridade policial.
Os regedores tinham, naturalmente, personalidades diferentes e muitos deles exerciam o cargo de forma demasiado autoritária e até ríspida. E um desses casos ocorreu na freguesia de S. Tiago da Cividade, concelho de Braga.
Foi no ano de 1873 quando o regedor da Cividade, o Sr. Sá, resolveu impor a sua autoridade de forma bem intimidatória. Para que a sua presença se fizesse notar, passava a maior parte do seu tempo nas ruas da freguesia, intimidando e ameaçando todos os que se atravessavam no seu caminho.
Cumprindo o decreto de 20 de julho de 1842, o Sr. Sá, regedor da Cividade, vestia um rigoroso uniforme, composto por uma casaca azul, com um ramo de carvalho de ouro bordado nas golas, um colete branco, calças azuis, botas e um chapéu redondo. O chapéu tinha o laço nacional e uma presilha preta, na qual estaria gravado o nome da freguesia da Cividade. Desta forma autoritária, percorria as ruas da freguesia, mesmo durante a noite, perseguindo, agredindo e, inclusive, dando ordem de prisão a todos quantos o ousassem confrontar. Ele próprio confessava várias vezes que não dormia descansado sem que fizesse uma prisão “que acompanha ordinariamente da competente bastonada!”. (1)
O regedor da Cividade, que se considerava “o regedor modelo”, circulava de “bengala empunhado e á frente d’alguns cabos da polícia armados e equipados” percorria as ruas da freguesia!
Sendo uma das principais funções dos regedores a do policiamento da freguesia, para o auxiliarem nesta função tinham às suas ordens funcionários designados por 'cabos de polícia'.
Numa das noites de junho de 1873, o regedor da Cividade deparou-se no bairro das Travessas com um homem que lá se encontrava e de imediato questionou-o sobre a razão que o levava a estar fora de casa ao início da noite. O cidadão assustado lá lhe respondeu que se encontrava ali porque estava a aguardar a chegada de uns amigos que se encontravam a tomar café nas proximidades. “Está preso, lhe diz o régulosinho; e lá o manda no meio de dous esbirros recolher á cadeia, sem quê nem por quê, e sem atender aos rogos e lagrimas da sua inocente victima!”.
Noutra ocasião, quando se encontrava já deitado na cama, o regedor da Cividade ouviu o chiar de um carro de bois e umas pequenas pancadas numa porta. Incomodado, levantou-se rapidamente e dirigiu-se para o local do barulho. Deparou-se, então, com uns indivíduos que se dirigiam à residência de um homem cego, para carregar o estrume que este tinha em sua casa. Contudo, o pobre cego, algo assustado, vacilou em abrir a porta, hesitação que foi do conhecimento do senhor regedor. Este, de imediato saltou “pela cama fóra, vem para a rua, apena uns indivíduos para o auxiliarem, dirige-se ao sítio onde estão altercando e intima o dono da casa para abrir a porta, sob pena de lh’a arrombar”!
O pobre cego, atemorizado, mal abriu a porta foi imediatamente insultado e preso pelo regedor. Na presença de outro homem, que se apercebeu do excesso do regedor, a autoridade local resolveu libertar o homem depois de o tratar de forma humilhante. De seguida ordenou aos carreiros que carregassem o estrume o mais rápido possível, pois se não o fizessem seriam imediatamente levados para a prisão!
Numa segunda-feira de junho de 1873, o regedor da Cividade decidiu impor novamente a sua autoridade depois de entrar num botequim que existia no então bairro das Travessas ordenando a todos os indivíduos, que lá se encontravam, a sua retirada imediata. No entanto, um desses indivíduos, apesar de se afastar para o exterior do estabelecimento, resolveu ficar a observar o que se passava no seu interior. O regedor, ao aperceber-se disso, de imediato o intimou a que se retirasse para casa! O individuo ousou desafiar ordeiramente o regedor, dizendo-lhe que tinha o direito “de passear por onde e até quando lhe conviesse”. Em consequência, foi levado para a cadeia, por ordem do regedor, que cumpria assim a autoridade em nome do administrador do concelho!
Nomeado para exercer o cargo de regedor da Cividade, o Sr. Sá ou o “regedor modelo”, como muitos o denominavam, passava os dias e noites a percorrer as ruas da freguesia, dando permanentes conselhos e constantes ordens de prisão. Fazia-o sempre de bengala na mão, muitas vezes levantada, para intimidar ainda mais os seus fregueses, que viviam assustados “às loucas ordens d’este novo régulo”.
A figura do regedor de freguesia foi extinta na sequência da introdução da Constituição da República Portuguesa de 1976. No entanto, não faltam no país indivíduos que, incumbidos desta autoridade local, julgam-se ainda verdadeiros regedores do século XIX! Hoje, alguns deles serão eleitos!



1) - “O Commercio do Minho”, de 14 de junho de 1873

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Ideias

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia