Azar, Filipe!

Ideias

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José Manuel Cruz

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Um azar persegue os Filipes de Espanha - o IV viu escapar-se-lhe o reino de Portugal, o VI poderá ver-lhe fugir o ducado da Catalunha, senão um País inteirinho. É sanha!
Que fique bem vincado: nenhuma malquerença nutro em relação às Espanhas, e não é com a desdita deles que acenderei a lareira no pino do inverno. Acresço que tão-pouco me guindo a paladino do integrismo ibérico, malgrado me apreste a trocar meia-dúzia de impressões diletantes sobre utópica União Ibérica, a reboque da campanha independentista da Catalunha. Não me aflige, assim, o ferrete de luso-traidor, esse com que tatuam - ou tatuaram - todos os que em seu tempo advogaram fusões e absorções numa única entidade política peninsular. Deixo à História o que da História é, que não interessam, hoje, as crises dos séculos XIV, XVII, XIX, que debelamos mal ou bem com ajuda e inspiração britânica. No fundo, por muito que custe, fomos sendo independentes à condição, e porque tal solução arranjava a quem, na Europa transpirenaica - de ambos os lados da Mancha -, não queria um estado peninsular com estatuto de superpotência.
Mudam-se os tempos, e talvez se mudem as vontades. Contra a autodeterminação catalã estão os legalistas, esses mangas-de-alpaca do status quo, e os supranacionalistas, os tais que propagandeiam o fim dos estados-nação em prol de diluição deslavada no regaço bruxellois: o nacionalismo é arcaico, dizem, fascizoide. Já o aludi, no passado, e regresso ao mesmo argumento: quem, em bentíssima europa, não votou a favor do referendo no Kosovo? Mais uma vez: percorra o leitor interessado a História recente, e verá como maltratados foram os Sérvios, a ponto de se verem espoliados de territórios que sérvios eram desde a alvorada da sua nacionalidade. Em nome de quê? E vá da europa progressista dizer que usa de dois pesos e duas medidas. Cruzes, canhoto!
Clamam os catalães pela autodeterminação e pela República, aquela que uma Espanha clerical, monárquico-falangista, espezinhou nos tristes idos de ’30. Os nacionalismos são obsoletos? E as monarquias, são o quê: o último grito da moda?
Nem homens nem instituições se guiam pela Razão. Por vezes chegamos a pensar que as empresas se orientam por normas positivas, embora nem isso seja de todo verdade. Somos levados por sentimentos, por estados de amor e desamor, que não raro redundam em catastrófica ruptura. Nada é imutável, e todos o sabemos. Assim, a conclusão evidente, é a de que a Espanha está a caminho de “outra coisa”, realidade que poderá tocar-nos, igualmente. Arranjar-se-á, por aí, quem se atreva a pensar de modo radicalmente distinto? Ou saciam-nos pequeníssimas cooperações transfronteiriças, tipo eurocidades, como Chaves-Verin, como San Sebastian-Bayonne?
Desmerecer o referendo catalão é remar contra a emergência de um devir. Incerto, naturalmente, que ninguém pode arvorar-se em conhecedor exímio do futuro. Não me parece, em complemento, que valha a pena diabolizar aqueles que puxaram o referendo para a ordem do dia. Até poderiam ter motivações egoístas, cavernosas, que uns o quiseram por umas razões, e outros por estímulos distintos; uns por idealização, outros por puro calculismo e vantagem pessoal. Lá está: puros, só os anjos, e esses nem todos os dias nos saem em caminho.
Até poderão chorar, amanhã, o que aplaudem hoje, os catalães independentistas, plausibilidade que nenhum efeito tem, de facto, que contrariedades e dias infelizes sobrevêm em todas as condições. De igual forma me parece de levar em pouca conta a estabilidade de fronteiras, a menos que se queira sustentar que, mais do que as pessoas, valem os riscos arbitrários forjados em campo de batalha. Em suma: o que válido foi, em argumento da dissolução da União Soviética, herdeira do imperialismo czarista, válido há de ser na reversão do imperialismo castelhano, por muito que semelhante formulação arranhe os ouvidos de quem quer que seja.
Em conclusão: o espanhol é um constructo aleatório perfeitamente descartável, sem que isso implique ofensa ou perda de direitos de orgulhosa cidadania do lado de lá da raia. Asturianos e Andaluzes dar-se-iam lindamente com Portugueses ou Bascos, nos passos perdidos de um Parlamento Ibérico, exactamente como Bávaros ou Renanos com os Saxões, nos bastidores das câmaras parlamentárias da nação alemã. Se é bom para eles, por que haveria de ser mau para nós?
Admito que talvez dê por afável, relacionamento que jamais adquirisse esse matiz, por via do ressentimento castelhano. Mas é pena, pois grandiosos podem os homens chegar a ser por múltiplas avenidas - pela belicosidade e capacidade de subjugar, pela sagacidade a evidenciar o comum e a convencer, qualidades que nem de perto nem de longe costumam coincidir nas mesmas criaturas. Haja inspirados e quem os cultive. Entretanto: Viva a República!

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