A doença dos partidos tradicionais

Ideias

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Pedro Morgado

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Ao longo da última década assistimos na Europa (e Estados Unidos) à impressionante ascensão de novos movimentos políticos que têm causado intensa preocupação entre aquele que acreditam e defendem a democracia liberal. Esses movimentos, de matriz radical, capitalizam o descontentamento das pessoas com o desvio do centro económico mundial para oriente e a desilusão com um sistema político dominado pelos partidos tradicionais. Ao mesmo tempo, beneficiam da indiferença de uma fatia significativa da população que escolhe abster-se para deixar tudo na mesma.

Vemos este fenómeno nos partidos de extrema direita e extrema esquerda, bem como nos movimentos independentistas que recrudescem, por exemplo, nas monarquias constitucionais de Espanha, Reino Unido e Bélgica. Curiosamente, em Portugal este fenómeno político tem tido uma expressão marginal que se explica pela apropriação de algum discurso neoliberal e radical de direita por parte do PSD e também pela coligação de governo entre o PS e os partidos que agregam o voto de protesto mais radical à esquerda.

Se é certo que os partidos nacionais não controlam nem as mudanças no paradigma económico nem as crises dos mercados internacionais, a verdade é que têm responsabilidades importantes no afastamento dos cidadãos em relação à política e na crescente incompreensão dos eleitores em relação ao funcionamento interno dos partidos.

Sendo certo que o PS teve uma vitória histórica nas últimas eleições autárquicas que muito beneficiou dos sucessos do governo e das opções de António Costa, a verdade é que, mesmo no partido que venceu, há alguns sinais que merecem reflexão por parte dos seus militantes e simpatizantes: das lutas intestinas em Barcelos, Matosinhos, Vila do Conde e Vizela à derrota avassaladora no concelho de Braga.

Em Braga, por exemplo, os resultados foram extraordinariamente negativos e resultaram de uma conjuntura difícil mas também de alguns problemas estruturais que não podem continuar a ser ignorados. É que, quem usa no século XXI a estratégia política do século XX está inevitavelmente condenado ao fracasso. Em primeiro, porque o arco da governabilidade alterou-se de forma decisiva depois da constituição de uma coligação de esquerda para governar Portugal.

Em segundo, porque a tendência é para que os partidos se abram à sociedade e discutam publicamente as suas opções estratégicas, deixando sem espaço aqueles que pensam que podem utilizar “reuniões fechadas” para dizer e escrever falsidades. Em terceiro, porque o caciquismo já deu, infelizmente, “os seus frutos” mas é cada vez mais repudiado pela população em geral.
No rescaldo das eleições autárquicas em Braga, vimos um PS adormecido e sem que ninguém assumisse responsabilidades pelo resultado francamente negativo.

Vimos, inclusivamente, alguns que escreviam em caixas de comentários que não se podia discutir abertamente o mau resultado nem apontar os responsáveis pela estratégia desastrosa porque o lugar certo para o fazer seriam as tais reuniões de porta fechada. E vimos alguns que, ingenuamente, acreditam que o PS reconquistará a confiança dos bracarenses repetindo a mesma estratégia e os mesmos erros. Como se não tivessem na Coligação Juntos por Guimarães um bom exemplo de que a confiança não se ganha pela persistência mas antes pelo valor das propostas e pela seriedade, currículo e carisma dos dirigentes e candidatos.

O PS nacional está a atravessar um bom momento e já teve em Braga a maior secção do país. Se a esquerda quer reconquistar a confiança dos eleitores então é preciso renovar os seus quadros, estudar os dossiers, participar ativamente na vida da cidade e envolver com seriedade e respeito a sociedade civil que está na sua órbita. De outro modo estes serão mais 4 anos perdidos.

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