Que aconteceu à ‘pós-verdade’?

Ideias

autor

João Ribeiro Mendes

contactarnum. de artigos 49

No outono de 2016, coincidindo com a eleição de Donald Trump para 45º Presidente dos E.U.A., os editores do Oxford Dictionaries Online elegeram como palavra do ano o adjetivo ‘pós-verdade’, definindo-o como «relativo a ou denotando circunstâncias em que os factos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública que os apelos à emoção e a crença pessoal». Infere da definição que um seu sinónimo é o vocábulo “pós-facto”.

Apesar de alguns terem alertado para o despropósito do neologismo, como por exemplo o influente colunista do The Guar- dian, Jonathan Freedland, na sua crónica “Don’t call it post-truth. There’s a simpler word: lies” (16.12.2016), sobretudo nos primeiros meses do ano em curso escreveu-se torrencialmente sobre o suposto conceito - digitando o termo inglês na caixa de pesquisa do Google obtemos o impressionante número de 289 milhões de páginas onde está presente - e organizaram-se debates e mais debates na esfera pública sobre o seu significado e alcance, com jornalistas, políticos, teóricos da comunicação e cientistas políticos e filósofos da política.

Logo na altura me pareceu estranho que uma tal noção aspetualmente epistemológica e ontológica não tivesse atraído, como seria de esperar, a atenção dos respetivos especialistas. E, com efeito, aqueles que se dedicam profissionalmente ao estudo filosófico do conhecimento e da realidade, epistemólogos e ontologistas, ficaram de fora na sua discussão no circo montado nos chamados espaços mediáticos. O que se seguiu foi a produção de um chorrilho de banalidades acerca da mesma e, com vertiginosa rapidez, o seu esquecimento. Talvez agora que o bruaá acabou, possamos começar a refletir mais serenamente sobre a sua semântica.

Desde logo, voltemos à definição de trabalho de “pós-verdade”. Repararam nos supostos não refletidos nela implicados? No plano ontológico, a existência de “crenças pessoais” e de “factos objetivos” ou, se preferir, de um estrato da realidade onde a Verdade mesma (para todos) se encontra para além do das relativas verdadezinhas particulares, isto é, inafetada por quaisquer interpretações subjetivas e com um valor superior a elas. No plano epistemológico, a possibilidade de acesso a essa Verdade está também implícita na dita definição, assim como a nossa capacidade para eficazmente destrinçarmos entre informação com genuíno valor cognitivo e a sua contrafação. Como se sabe, tais supostos têm vindo a ser discutidos pelos filósofos há uns bons 25 séculos, sem que um derradeiro consenso sobre os mesmos se afigure próximo. O assunto é, pois, tudo menos novo.

A filósofa estadunidense Kathleen Higgins, no artigo que redigiu para Nature, “Post-truth: a guide for the perplexed” (28.11.2016) afirmou: «A pós-verdade refere-se a mentiras flagrantes que se tornaram costumeiras em toda a sociedade (…) A tolerância pública a alegações imprecisas e indefinidas, non sequiturs em resposta a perguntas difíceis e denegações completas de factos é chocantemente elevada». Dar-lhe razão, contudo, leva a reconhecer, de novo, que estamos perante um problema epistemológico velho e muito controvertido: o da mentira (como ato perlocucionário, isto é, envolvendo uma promessa não cumprida).

Enfim, porque não resgatar a reflexão iniciada (e prontamente esquecida) pelo autor do neologismo “Epistemologia”, o filósofo escocês do século XIX James Ferrier sobre a “Agnotologia”, ou seja, sobre os modos de (des)construção da ignorância, porque a “pós-verdade”, bem vistas as coisas, não passa disso.

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Ideias

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia