Os 150 anos do livro ‘O Capital’, de Karl Marx

Ideias

autor

António Ferraz

contactarnum. de artigos 94

Em 11 de Setembro de 1867, portanto, há 150 anos, foi lançado em primeira edição o Livro I de “O Capital: Crítica da Economia Política”, de Karl Marx (1818-1883). Esta obra “clássica” tem vindo a ser reconhecida com elevada consensualidade como sendo um marco histórico da humanidade (os Livros II e III de “O Capital” foram escritos já depois da sua morte pelo seu contemporâneo Friedrich Engels). O “Capital” aborda no fundamental a génese, a constituição e a dinâmica contraditória do modo de produção capitalista.
Ora, posto isso, a verdade é que um século e meio depois, verificamos que o capitalismo ainda não colapsou, porém, a visão crítica marxista do capitalismo, no essencial, ainda são consideradas por muitos e muitos pensadores como válidas nos dias de hoje. Porquê? Antes de responder a esta questão deixamos ficar um breve esboço das principais teses críticas de Marx em “O Capital”:
(1) O capitalismo possui uma notável capacidade para a produção de riquezas materiais e, assim, exerceu, historicamente, um papel civilizacional; (2) O capitalismo faz surgir antagonismos nas relações sociais de produção, consequência da divisão da sociedade entre capitalistas, proprietários dos meios de produção, e trabalhadores que vendem a sua força de trabalho, uma divisão que diga-se continua a existir até hoje; (3) O capitalismo como resultado das suas contradições conduzem necessariamente às crises cíclicas ou recorrentes mais ou menos graves; (4) O papel civilizacional do capitalismo esmorece e pode conduzir aquilo que Marx designou por barbarização da vida social, consequência da lei geral da acumulação; (5) O capitalismo, a partir da sua plena maturação, provoca fortes tendências ao bloqueio da sua própria dinâmica; (6) O capitalismo não é a expressão de uma hipotética ordem natural nem, muito menos, o “fim da história”, é sim um modelo substituível de organização da produção e distribuição das riquezas sociais; (7) As crises cíclicas do capitalismo podem tornar-se em oportunidades de mudança social e de construção de um novo e superior modo de produção, o que acontecerá quando houver um elevado grau de consciência social dos trabalhadores.
Quanto a questão levantada, começaremos por dizer que há pensadores críticos do marxismo que apontam para facto de a maior fragilidade do pensamento de Marx residir na sua visão determinista, ou seja, a agudização inevitável das contradições e antagonismos do capitalismo conduz a ruptura social e a construção de um novo e superior modo de produção superior que ele designou por Socialismo (primeira etapa para o Comunismo). Por sua vez, para eles, a História tem mostrado que o capitalismo possui uma maior capacidade de adaptação do que Marx previu, apresentando-se hoje com profundas alterações que mudaram a ordem do capital e um contexto histórico-social e cultural totalmente diverso do tempo de Marx.
Contudo, para muitos outros pensadores, apesar disso - 150 anos depois, “O Capital” e as principais teses críticas marxistas do continuam, no essencial, a ser relevantes e um poderoso instrumento de análise teórica e prática do mundo de hoje.
Com o colapso do chamado “socialismo real” (da URSS) e com o domínio global das teses neoliberais: mercado livre, desregulação económica e financeira e demissão do papel intervencionista do Estado, assistiu-se, nomeadamente a partir dos anos 1970, a um forte recuo do movimento social dos trabalhadores, a um enfraquecimento sindical e a uma secundarização da crítica teórica do sistema capitalista. Contrariando, porém, a crítica mordaz ao sistema soviético será importante ter em conta que se o marxismo for considerado responsável por experiências falhadas a que ele foi alheio, então também muitas outras situações perversas no chamado “mundo livre” poderiam ser justificadas com as ideias de “democracia” ou “liberdade”!
Quer dizer, o pensamento marxista deve ser visto não pelas múltiplas apropriações feitas no passado, mas sim pelo seu relevo na análise crítica teórica e prática do capitalismo e pela emancipação das classes dos trabalhadores e, tudo isso continua perfeitamente válido nos dias de hoje. Aliás, generaliza-se a concepção de que as crises do capitalismo são estruturais e sistémicas: “não existe capitalismo sem crise”. Exemplo recente e maior disso mesmo é a crise económica e financeira desde 2008, com os seus fortes impactos negativos na vida das pessoas.
Marx não deve ser visto como um profeta nem visionário, ele nunca definiu, como, quando e onde aconteceria a mudança social que superasse as contradições do capitalismo. Para ele, isso seria uma tarefa dos trabalhadores e suas organizações de classe, desde que houvesse condições objectivas e subjectivas para tal.
Concluindo, a obra “O Capital” de Karl Marx não deve ser entendida como uma espécie de bíblia, ao invés, a sua leitura deve ser flexível e sintonizada com o tempo histórico em que nos encontremos. Ora, quando se assiste a nível mundial a uma concentração indecorosa da riqueza (por exemplo, nos EUA, os 1% mais ricos tem hoje mais de 40% da riqueza total do país), pergunta-se: não continuam a ser, no essencial, válidas as teses marxistas? Já agora, para finalizar apenas um apontamento: Porquê, a obra “O Capital” e o pensamento marxista não constam (praticamente) dos estudos económicos, sociais e políticos das Universidades portuguesas, e não só)?

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Ideias

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia