O ataque à imprensa de Braga

Ideias

autor

Joaquim Gomes

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A comunicação social exerce, como todos sabemos, poder sobre a sociedade, influenciando e sendo influenciada por pessoas e instituições. Apesar dessa capacidade ser mais visível na atualidade, noutras épocas esta pressão manifestava-se por outros meios, inclusive o da violência. Um episódio bem exemplificativo aconteceu com Albano Coelho, diretor do jornal “O Commercio do Minho”, a propósito da visita dos monarcas portugueses a Braga, passam agora 130 anos.
Quando Braga recebeu a visita dos monarcas portugueses, em outubro de 1887, vivia-se uma época marcada pela grande instabilidade económica e social, destacando-se aqui a fome e a miséria que assolava o país, em geral, e esta região, em particular.
Foi neste contexto que o diretor do jornal “O Commercio do Minho” descreveu a pobreza desta região, no último quartel do século XIX, destacando a luta diária pela sobrevivência. A edição de 6 de outubro de 1887 provocou um dos maiores ataques sofridos pela imprensa de Braga!
Albano Coelho começa por dizer que “Chegaram a esta cidade os viajantes régios. Não nos demos ao trabalho de saber se chegaram de saúde, mas cremos que sim. O snr. D. Luiz trazia as mesmas suissas que lhe vimos no Porto e o snr. D. Carlos o mesmo bigode”! Acrescentou, de seguida, que D. Amélia estava rodeada por muitos “bajuladores dementados como difamadores de officio”, pediu que esta veja a realidade que a rodeia.
Para Albano Coelho, o povo que recebia a princesa e que se associava de forma inconsciente “ás demonstrações com que vos recebem, não é o povo portuguez: é a escoria, é a degeneração d’uma raça honesta e heróica, que pelo seu esforço levantou ao apogeu da gloria o seu torreão adorado”.
O diretor do jornal, no texto intitulado “Á Princeza D. Amelia” aconselhou-a a visitar as aldeias e percorrer “os casebres do povo, e haveis de arrepender-vos de ter vindo ostentar grandezas perante a pobreza que aqui vegeta”. Se optar por fazer esta visita, encontrará as portas das casas fechadas, e “lá dentro, á espera que os paes regressem do trabalho duro dos campos, uns filhinhos magros, amarelos e nus, pedindo pão para matar a fome e mantas para se abrigarem do frio. Encontrareis mulheres negras do tempo, com os pés atolados na lama, as saias despedaçadas e os cabelos em desordem, acarretando feixes de lenha, sujeitando-se a trabalhos pesados de mais para o seu sexo, movendo-se debaixo d’uma lide interminável, para á noite poderem trazer uma borôa para casa, e com ella calar momentaneamente os filhos que choram á mingua de alimento. Encontrareis quadros atrocíssimos de dôr e desespero, que percutirão no vosso coração de mãe e vos obrigarão a confessar que é um escarneo toda a pompa que vos cerca, que é um insulto toda a grandeza de que vos ataviam”.
Depois de referir que D. Amélia não conseguirá ouvir a voz do povo, abafada pelos festejos dos seus admiradores, Albano Coelho lembrou que o dinheiro que “a família real gasta n’uma hora, teriam pão milhares de portuguezes; com os vestidos que vós todos mandaes fazer nas casas de modas do estrangeiro, seria coberta a miséria de milhares de infelizes, que tiritam quando o frio lhes vergasta a nudez”.
Albano Coelho alertou mesmo D. Amélia que não deveria “escarnecer dos pobres (…) nem rir sobre os seus farrapos”! Alertou ainda que, no futuro, o provável é que “a corôa que vos circumda a fronte, póde ser despedaçada pelo povo; as vestes riquíssimas que vos ataviam, podem ser esfarrapadas pelas garras d’esse gigante esfomeado; os diamantes que trazeis semeados nos cabelos, podem ser arrancados violentamente pela plebe…”. E se isso acontecer, que farão os monarcas? “Aqueles que pagam para vós gosardes, habitam coviz infectos, horríveis até para os vossos cães; comem pão negro, que os vossos cães regeitariam, e vestem andrajos sujos que não serviriam para esfregões das vossas cozinheiras”! Perante esta realidade, a família real portuguesa ainda deseja que “o povo vos saúde? que o pobre vos acclame? que o povo vos glorifique”?
Em jeito de profecia, confirmada anos mais tarde com o regicídio de 1908, Albano Coelho avisou D. Amélia que “O povo ha-de tirar desforço dos insultos que lhe dirigem n’essas carruagens sumptuosas, n’esses jantares opíparos, n’esses bailes deslumbrantes…”. E alertou ainda que “o povo portuguez é leão amoroso nos dias de felicidade; mas também é chacal insaciável nas horas de desespero”.
O que Albano Coelho não contava era com a reação do dia seguinte. Um grupo de comerciantes reuniu vários populares, invadiu a redação do jornal e exigiu a retratação do seu diretor. Sob ameaça verbal e física, Albano Coelho compareceu à janela e retratou-se publicamente de tudo o que tinha escrito. De seguida, a multidão obrigou-o a levantar vivas aos Reis de Portugal e a entregar o jornal, já impresso, para ser queimado na praça pública!
No dia 13 de outubro foi publicado um suplemento ao n.º 2173 deste jornal, no qual Albano Coelho afirma que este jornal “retracta-se cabalmente de tudo quanto exarou” na edição anterior, afirmando ainda que só uma “excessiva paixão politica poderia leva-la a fazer commentarios injustos”!
Este caso foi amplamente debatido durante vários meses, quer na imprensa regional, quer nacional chegando, inclusivamente, às instâncias judiciais!


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