Precisamos de uma outra revolução na TV portuguesa

Ideias

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Felisbela Lopes

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25 anos de televisão privada passaram. Por estes dias, organizei em Lisboa, juntamente com o meu colega Gustavo Cardoso, um conferência que juntou presidentes das televisões, diretores de informação e responsáveis pela programação. Todos sublinharam o papel central que a TV teve nestes anos. Todos concordaram que há uma revolução que o audiovisual ainda não assumiu: a do universo digital. Abre-se aqui um longo caminho que urge fazer com determinação.

Em Portugal, a televisão tem sido um elemento importantíssimo na redefinição de campos sociais. Da política, do futebol, da economia, da justiça... É verdade que poderia ter um papel mais ativo noutros campos: na cultura, na educação, no conhecimento... Mas não vamos começar pelo exercício de apontar o dedo. Falemos antes do muito que se fez: do papel de escrutínio público de instituições, de empresas, de pessoas; do trabalho de ir muitas vezes até ao fim da rua e até ao outro lado do mundo em reportagens que trouxeram para junto de nós pedaços de vidas desconhecidas; de programas que ousaram, em pleno horário nobre e em sinal aberto, falar da saúde pelo ângulo positivo, de livros com autores quase desconhecidos, dos tostões e dos milhões que agora vamos contando transformados em euros e em cêntimos.

Neste tempo, a televisão também deu outro estímulo à ficção nacional. Provou-se que as audiências seguem com interesse aquilo que se produz por cá. E nós conseguimos criar produtos de qualidade. Em séries e em novelas, filmadas em diferentes regiões do país. Também colocámos no ar formatos que mostraram que somos um país de gente com talento, com criatividade, disposta a arriscar tudo por um sonho. Nas orlas mais periféricas das grelhas, houve algum espaço para uma programação infantil muito didática, para documentários que se constituíram como uma referência, para desportos que não se fazem com massas, mas que reúnem o interesse de muitos.
Hoje a televisão continua a ser o principal meio de informação e de entretenimento de muitos. E isso confere-lhe maior responsabilidade. A TV de serviço público e os canais privados com licenças renovadas periodicamente depois de escrutinado o cumprimento das suas obrigações terão de ser sempre objeto de um amplo e participado debate quanto àquilo que fizeram e quanto ao que pode fazer. E há muito para fazer.

Comecemos pelas empresas e pelo respetivo financiamento. É urgente, muito urgente, encontrar novos modelos de financiamento. Falemos dos canais generalistas. Precisamos de alguma renovação das grelhas em sinal aberto. Há que desenvolver outras engenharias de programação. Em 1992, a SIC arriscou tudo porque estava a começar; em 2000 a TVI foi ousada porque não queria ficar na cauda da audimetria. O risco foi sempre compensado. Na informação precisamos de mais atores em destaque, de um país com uma cobertura noticiosa mais intensificada, de outras áreas mais privilegiadas. Temos de ser capazes de converter o importante em interessante. No entretenimento que bom seria se conseguíssemos criar enredos mais encostados à nossa realidade política, económica, social. Urge também apostar noutros formatos, radicalmente diferentes daqueles que seguimos nestes últimos 17 anos, depois da estreia do Big Brother.

No entanto, o maior desafio está hoje no digital. Os teóricos que estudam a televisão há muito que anunciaram a pós-televisão. No entanto, este ambiente de convergência de ecrãs continua a ser ainda uma promessa por cumprir. Não há trabalho contínuo para conteúdos nativos digitais, não há uma efetiva participação e integração dos cidadão aí. A tal ágora electrónica é uma espécie de terra prometida aonde ainda não chegamos. E lá continuamos presos a um ecrã centrípeto que atrai, acomoda e combina em si recursos espácio-temporais e socio-semióticos, procurando aí uma posição central que lhe irá fugir, se ninguém conseguir fazer a tal revolução que se ambiciona.

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