Os políticos e as emoções

Ideias

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Felisbela Lopes

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A ex-ministra Constança Urbano de Sousa foi reiteradamente criticada por sucumbir à exteriorização das suas emoções em público, António Costa foi duramente criticado por não ter feito atravessar a sua comunicação ao país por marcas emotivas, o Presidente da República é valorizado pelos afetos que distribui pelos portugueses. O que deve a classe política fazer com as suas emoções? Deve ajustá-las ao contexto e reagir com a dimensão que determinada situação impõe. No caso dos incêndios, não há dúvida: a consternação não deveria ser reprimida.

Fechado num certo individualismo ou procurando estar junto dos outros através de múltiplas colas do mundo, cada um de nós deveria saber que as emoções constituem um elemento presente nas estruturas e processos sociais e, sobretudo, na forma como lida consigo e com aquilo que lhe é exterior. Intrínsecas a cada indivíduo, as emoções têm manifestações diferentes conforme os contextos, as pessoas e também as classes.

Num livro intitulado ‘Emoções, Teoria Social e Estrutura Social’, Jack Barbalet defende que os grupos populares seriam aqueles que manifestariam as suas emoções de forma mais visível. E espontânea. Sabendo-se sem poder em vários campos sociais, o cidadão comum percebe que pode ser protagonista da sua própria vida, reduzindo, por vezes, ao seu eu (quase) todo o mundo fenomenal. Ora, isso não significa que outros atores sociais devam despir-se do seu lado emotivo, nomeadamente quando estão no espaço público. Há momentos em que isso se impõe.

A valorização das emoções como parte fundamental de qualquer comportamento racional é relativamente recente. O passado devolve-nos várias figuras que insistiram, a partir de diferentes campos, na oposição entre o sentir e o pensar. Não era isso que caracterizava o herói romântico, cativo do seu lado emocional e esquecido das suas obrigações sociais? Por muito tempo, notou-se uma certa dificuldade em aceitar as emoções como base da razão. No entanto, em determinados períodos, houve quem chamasse a atenção para essa componente da vida individual e social.

Foi o caso, por exemplo, de Darwin, James e Freud, que, no século XIX, se detiveram no estudo da emoção, concedendo-lhe um lugar privilegiado no discurso científico. Nesse tempo, sociólogos como Tocqueville, Le Bon, Durkheim, Simmel também reconheciam as emoções como uma variante explicativa com alguma importância no estudo da ação social. Já na primeira metade do século XX, as ciências cognitivas minimizaram a vertente emocional do indivíduo e correntes sociológicas como o funcionalismo enfatizaram as bases racionais da ação social, nomeadamente nos sistemas de ação instrumental.

As emoções viriam a adquirir outro vigor para a compreensão do agir do homem com certas investigações sociológicas e, sobretudo, com pesquisas das Neurociências dos finais do século XX. O desenho desta área específica da Sociologia consagrada às emoções revela igualmente o crescente interesse da comunidade científica por esta problemática. Mas talvez tivesse sido no campo das Neurociências que as emoções conquistaram maior notoriedade.

Aí, António Damásio foi um importante impulsionador de estudos que congregam a racionalidade com a emotividade: no livro ‘O Erro de Descartes’ (1997), o cientista contrariou as teses daqueles que defendiam a separação entre o corpo e a alma; na obra ‘O Sentimento de Si’ (2000), deteve-se no papel da emoção e do sentimento na construção do “Si”; em ‘Ao Encontro de Espinosa’ (2003) procurou a “biologia” dos sentimentos.

A valorização conjunta do emocional e do racional é permanente no trabalho deste cientista. Apresentando as emoções como curiosas adaptações que fazem parte integrante do mecanismo através do qual os organismos regulam a sua sobrevivência, Damásio leva em linha de conta o facto de a componente emocional condicionar a regulação homeostática, concluindo, então, que as emoções não só proporcionam fontes de energia como também podem ser um elemento ativo nos processos de raciocínio e de tomada de decisões.

A declaração pública de António Costa de que teria sido preferível ter escutado uma censura de que abusara das suas emoções em público é o reconhecimento de que ao homem público não basta agir com base em enxutos processos racionais. É preciso mostrar compaixão perante a dor. E apresentar alguma cumplicidade com aqueles que sofrem. Marcelo Rebelo de Sousa talvez esteja a exacerbar o poder dos afetos, mas nestes tempos sombrios os seus abraços ajudaram certamente aqueles que perderam tudo e serviram para dessacralizar alguns cargos, principalmente o de Presidente da República que durante tantos anos fomos vendo enclausurado num inacessível protocolo de Estado.

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