Décadas de negligência

Ideias

autor

Jorge Cruz

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“Quero sublinhar a forma rápida e tão abrangente como o Conselho de Ministros quis tratar de tudo e de tantos dossiês em tão pouco espaço de tempo”, afirmou no domingo o Presidente da República. Marcelo sublinhou, no entanto, que “isto é o início de um processo” e alertou para a necessidade de uma convergência nacional sobre a temática dos fogos porque, conforme enfatizou, “sem essa convergência não vamos lá”.

O elogio ao governo é perfeitamente compreensível e justo porquanto, de facto, o Conselho de Ministros Extraordinário, convocado na sequência do relatório da comissão independente, não hesitou em tomar as medidas de emergência que a presente situação dramática reclama, mas sem secundarizar a questão de fundo, ou seja, dando as respostas que possam ir ao encontro das preocupações manifestadas pelos especialistas. E esta será, sem quaisquer dúvidas, a matéria mais preocupante, aquela que necessitará de um autêntico pacto de regime que evite que as políticas para o sector estejam dependentes de ciclos eleitorais. Daí que também ganhe foros de enorme relevância e oportunidade o apelo de Marcelo à convergência nacional.

O supremo magistrado sabe, como todos os portugueses, que a culpa é colectiva, que não pertence apenas a este ou a qualquer outro governo. E acentuou-o claramente quanto referiu ser esta a derradeira oportunidade para nos preocuparmos com a floresta.

Se nos lembrarmos, por exemplo, de Gonçalo Ribeiro Teles, um reputado especialista que nos alertou incessantemente para a falta de organização do território, e pensarmos que os seus alertas não obtiveram qualquer correspondência por parte dos poderes públicos, antes foram anos e anos a pregar no deserto, facilmente concluiremos que a culpa é de todos nós. E é de todos nós, embora naturalmente com graduações distintas, porque como estas desgraças agora vieram demonstrar, tantos anos volvidos e que corresponderam a muitos e diversificados governos, o resultado está à vista!

Como muito bem afirmou a antiga líder do PSD, a propósito da moção de censura apresentada pelo CDS, “há culpa política há muitos anos e vem de muita gente e vem de muitos sectores”, remetendo a iniciativa parlamentar de Cristas à “ânsia de protagonismo do CDS”. Ao sublinhar que “na política não vale tudo”, Manuela Ferreira Leite lembrou que ainda não estão analisadas todas as causas dos incêndios, lembrando que no mesmo dia ocorreram mais de 500 ignições para concluir que a “culpa é de muitos organismos, culpa nossa, culpa de toda a gente”.

Na mesma linha de raciocínio, o ex-comandante distrital de Braga da Protecção Civil disse à Antena Minho/Correio do Minho que “há 40 anos não é feito praticamente nada na floresta”, pelo que atribui a um “conjunto de factores que se foram acumulando” a causa do número anormal de fogos florestais em Portugal. “O acumular de combustível, o desordenamento da floresta e as monoculturas levam a que o combate aos incêndios seja complicado”, sublinhou Hercílio Campos, acentuando que o combate ao fogo é “o fim da linha”, sofrendo sempre “com aquilo que não foi feito por todos os outros intervenientes”.

Com efeito, as décadas de abandono do interior, de desordenamento do território, de menosprezo pela floresta, não nos podem orgulhar, bem pelo contrário. A juntar a tudo isso, ainda vergamos às ignóbeis exigências de uma Comunidade Europeia que não hesitou em avançar com elevados montantes, anunciados como indemnizatórios mas que por vezes mais pareciam subornos, para sacrificar a agricultura portuguesa. E essa terá sido porventura a grande machadada no nosso mundo rural, aquela que mais terá contribuído para o abandono e consequente desertificação.

No plano político, os menos escrupulosos, aqueles que não olham a meios para atingirem fins inconfessáveis, até podem tentar cavalgar uma desgraça como esta que o país viveu. Mas até esses sabem, tanto mais que também têm grandes responsabilidades a pesar-lhes na consciência - se é que ainda têm essa percepção -, que o Estado, ou seja, todos nós, se demitiu da maioria do território, outorgando o interior aos idosos e à própria natureza.

E a verdade é que ninguém sai incólume. Nesta mais recente tragédia haverá, eventualmente, mão criminosa. Haverá uma boa dose de negligência e até alguma incompetência à mistura. Existiu, de facto, uma gritante falta de meios e uma série de coincidências quiçá irrepetíveis, de que as duríssimas condições climatéricas são parte integrante. Mas voltamos sempre ao mesmo: o desordenamento do território, as sucessivas políticas erráticas que contribuíram para o abandono do interior e, ainda, o incumprimento da lei. Estes, sim, são os ingredientes de um caldo suficientemente forte para conduzir ao estado de quase falência a que chegamos.

Vamos ver se a partir deste “grau zero” conseguiremos alavancar um processo, necessariamente moroso, de inversão da situação. É mais que tempo de dignificar o interior como parte integrante e relevante do território nacional, o que passa pela adopção de políticas que contribuam para aumentar a atractividade dessas regiões. Mas também por uma prevenção mais cuidada e atenta, uma prevenção com maior envolvência cívica mas que seja de igual modo uma bandeira de todos os responsáveis políticos, a começar por aqueles com maior proximidade - os autarcas locais. Sim, porque as lamúrias e reclamações pela falta de meios, embora justas, não podem fazer esquecer as próprias responsabilidades em matéria de fiscalização e prevenção.

Esta é, efectivamente, uma daquelas matérias para a qual se convoca a tal convergência nacional de que falou o Presidente da República. E, nessa medida, constitui uma tarefa que deve envolver toda a comunidade.

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