Simplesmente abandonados

Ideias

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José Manuel Fernandes

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Pensávamos que Pedrógão Grande não se repetiria. Foi há 4 meses. No dia 17 de Junho, morreram 64 pessoas e mais de 250 ficaram feridas. Os erros e a incompetência do Governo na área da Proteção Civil ficaram bem evidentes e não era preciso esperar por um relatório para nos dizer que tinha corrido tudo mal.
No dia 12 de Outubro, a Comissão Técnica Independente divulgou o relatório sobre os eventos de Pedrógão. Um relatório que apontou os erros - demasiados - e que pôs a nu a incompetência do Governo. Um relatório com recomendações para que não voltassem a acontecer os mesmos erros. Não era necessário ter esperado por um relatório para agir e alterar o que estava errado e saltava à vista de todos. Mas, se na atuação nos dias dos incêndios o Governo esteve mal, na prevenção esteve mesmo muito mal.

Infelizmente, no passado dia 15 de Outubro, a tragédia repetiu-se.
No total deste ano foram mais de 100 mortos, mais de 300 feridos e mais de 520 hectares de floresta ardida. Centenas de empresas e pequenos agricultores foram gravemente afetados. Todos fomos atingidos. Famílias destroçadas, danos patrimoniais e ambientais dificilmente recuperáveis e uma realidade que não voltará a ser a mesma.
Não é aceitável que o Governo nada tenha feito depois de Pedrógão. Não se compreende que os avisos relativos às condições meteorológicas, feitos 72 horas antes, tenham sido ignorados! Tal como em Pedrógão, o Mecanismo Europeu de Proteção Civil para pedido de meios aéreos foi acionado tardiamente!
Portugal foi assolado por uma tragédia inimaginável num país desenvolvido e num país da União Europeia!
O Governo falhou. Mais uma vez!

António Costa tem enormes responsabilidades políticas no que aconteceu. Estava avisado. Deslumbrou-se com os resultados eleitorais das últimas eleições autárquicas, confiou na sorte, não aceitou o pedido de demissão por parte da então Ministra da Administração Interna que considerava - acertadamente - que depois de Pedrógão não tinha condições para se manter no cargo.
Perante a tragédia, o Primeiro-ministro António Costa, a ex-Ministra da Administração Interna e o Secretário de Estado, em vez de pedirem desculpa aos portugueses e de agradecerem o esforço que estava a ser feito pelas populações, fizeram declarações inacreditáveis e inqualificáveis. Entre a vontade de rir do Primeiro-Ministro, a vontade de ir de férias da ex-Ministra e o ralhete para mais pro-atividade das populações do ex-Secretário de Estado, a atuação do Governo mostrou uma insensibilidade atroz.

António Costa demonstrou que não tem fibra para momentos difíceis e onde se exige liderança. Mais grave: mostrou impreparação e incompreensão da realidade.
A “loucura” do Governo foi estancada graças ao Presidente Marcelo. Numa intervenção dura, o Presidente acordou o Governo e obrigou-o a tirar todas as consequências. A Ministra demitiu-se e revelou que, após Pedrógão, tinha pedido insistentemente para abandonar o Governo, mas António Costa tinha recusado!

Contrariado e a pedido do líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, António Costa pediu umas ténues desculpas, avançou com um mecanismo de indemnização rápido para as vítimas e com medidas que reforçam os meios de ataque aos fogos. Mas continuam a faltar medidas estruturais dirigidas à prevenção. Todos sabemos que mais vale prevenir do que remediar.
É urgente devolver a esperança e os meios às populações afetadas. O Orçamento de Estado, o Fundo Europeu de Solidariedade e os fundos disponíveis no denominado “Portugal 2020” têm de ser utilizados para reparar os danos, o mais rapidamente possível. A ajuda aos afetados tem de ser coordenada e cabe ao Governo providenciar nesse sentido.

É necessário promover a coesão territorial. Os Governos têm esquecido o mundo rural, com as consequências graves que enfrentamos agora. O Estado falhou e não esteve presente quando o fogo lá chegou. As pessoas do mundo rural têm sido simplesmente abandonadas.

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