Erros e Má Fortuna

Ideias

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Margarida Proença

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Um dos sonetos mais conhecido de Camões começa com “Erros meus, má fortuna, amor ardente/-/em minha perdição se conjuraram/ os erros e a Fortuna sobejaram”. E acrescenta ainda “Tudo passei; mas tenho tão presente/a grande dor das cousas que passaram/ que já as frequências suas me ensinaram/a desejos deixar de ser contente “. A recente tragédia dos fogos, de tantas vidas perdidas, da destruição ambiental e das perdas patrimoniais trouxe-me de imediato estes versos à memória.

Má fortuna, seguramente; diversos investigadores, nacionais e internacionais , vieram chamar a atenção para a conjugação de fenómenos invulgares do ponto de vista meteorológico - um ano muito seco, temperaturas elevadas , ventos fortes, tufão de fogo. Naturais, ou provocadas pelo homem, os cataclismos têm sempre alguma coisa de aleatório, de imponderável, de inesperado, acarretam perdas humanas e prejuízos económicos, tragédias que importa absolutamente aprender a controlar e a minimizar. Todos nós. Porque uma coisa é certa - não vão desaparecer. Christine Lagarde, diretora geral do FMI, veio agora lançar um alerta sobre o “futuro sombrio” em consequência das alterações climáticas : “vamos morrer assados, torrados e queimados”.

Precisamos conhecer os riscos, causas prováveis, possíveis formas de resposta durante os eventos.
Erros meus, erros nossos, erros de todos -de políticas, ou da sua ausência, de uma cultura dominante. Provavelmente por defeito profissional, preciso procurar por relações de causalidade; a floresta demora a crescer. Os eucaliptos demoram 7 a 10 anos para estarem prontos para cortar, os pinheiros de 30 a 40 anos , dizem ; ainda que não seja verdade, que seja menos tempo, é sempre muito mais do que uma legislatura. Ora a floresta portuguesa é um ecossistema muito antigo, que no princípio desta década ocupava 3,3 milhões de hectares, segundo dados do World Florest Institute, constantes de um trabalho aí divulgado, e realizado por Vera Serrão.

Portugal tem a proporção de área florestal mais elevada de toda a Europa (38%), mesmo superior à área dedicada a agricultura. Trata-se de um setor em que o país tem uma vantagem comparativa, como aliás muitos anos atrás, Michael Porter, num estudo que conduziu para Portugal, sublinhava. Por isso também veio para cá a indústria da celulose por meados dos anos 60; a expansão do eucalipto, que representa cerca de 20% da nossa floresta, verificou-se no século XIX, mas na verdade acompanhou a instalação e o crescimento da indústria ligada á pasta do papel. Na Beira Baixa, bem no interior do país, esta indústria teve efeitos positivos e negativos, como sempre. Permitiu algum crescimento, permitiu emprego e induziu uma população rural, muito pobre, a apostar na plantação de eucaliptos, que sendo de crescimento mais rápido, e com escoamento garantido, são mais lucrativos, mas inibe o desenvolvimento de outras plantas ou árvores. Portugal é o quarto maior produtor europeu de pasta para papel.

A vantagem competitiva da floresta é ainda facilmente confirmada pela importância que a cortiça tem; o país fornece metade da produção mundial da cortiça. O pinheiro, o eucalipto e o sobreiro representam 75% de toda a floresta em Portugal; quase 30% é pinheiro.
Dada a importância relativa do setor em Portugal seria de pensar que tinha merecido atenção devida, ao longo de décadas. Mas não é verdade. O mercado, a tradição, a cultura, o clima, funcionaram sempre por si só. Só 3% da propriedade é pública, de longe o mais baixo de toda a União Europeia; na Alemanha é mais de 50%, nos Estados Unidos anda pelos 40%. 7% é administrado pelas indústrias ligadas à celulose; os baldios andam pelos 12%. Tudo o mais é propriedade privada, excessivamente fragmentada, com uma taxa de lucratividade baixíssima como não poderia deixar de ser. A idade média dos proprietários é muito, muito elevada.

No interior do país, nas zonas por onde correram os fogos, há manchas em que a idade média ronda os 70 anos. As práticas agrícolas são tradicionais, os terrenos não são limpos porque as pessoas não têm dinheiro para tal, porque não têm idade para o fazer, mas também porque nunca o fizeram, e no fundo não reconhecem de facto a necessidade de tal. A emigração, e as migrações internas, levaram ao abandono de muitas terras, que apesar de tudo os donos não querem vender porque a tradição o não permite. A produtividade é irrisória, e a rentabilidade uma ficção.

Entretanto, o Min. da Agricultura foi reduzindo a sua intervenção, e os cuidados paliativos substituíram o tratamento da doença. Proliferaram os interesses múltiplos, porventura razoáveis, mas diversos e possivelmente antagónicos. O problema tornou-se o apagar dos fogos, sem intervir na regulamentação do setor, com a atávica desconfiança portuguesa a quem detém conhecimento científico, sem coragem de afrontar políticamente interesses locais. Naturalmente , que todos os intervenientes terão feito o melhor que puderam e souberam, os bombeiros merecem toda o nosso respeito e admiração, mas o problema não é esse. O meu pai faleceu com um cancro no pulmão; os cuidados que teve, a excelência da qualidade do tratamento médico e hospitalar que recebeu não foram suficientes para ultrapassar uma doença gravíssima e num estádio demasiado avançado.

Nos últimos 12 anos faleceram 207 pessoas em incêndios florestais em Portugal - a tragédia deste ano confronta-se com uma quase normalização, ano após ano. Não pode ser. Falta de gestão da floresta, aumento da biomassa e do material combustível, excessiva fragmentação, displicência de grandes empresas na limpeza ou verificação de redes rodoviárias e postos de eletricidade, ausência de um ordenamento florestal sério e respeitado, insuficiente participação cívica , ausência de regulamentação, etc, todos temos culpas. A calamidade deste ano traduz esta culpa acumulada ao longo de décadas e décadas pela ausência de regulamentação efetiva, pela discrepância no desenvolvimento regional. Sou beirã , e conheço bem essa zona por onde o fogo andou- as lamechiches dizem-me pouco, os passa-culpas ainda menos. È tempo de atuar.

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