Verão de 2018

Ideias

autor

João Ribeiro Mendes

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Mais um Outono acaba de começar. O que se passou no Estio recém-findo foi muito semelhante ao de 2017. Estou a falar, claro, dos pavorosos incêndios que assolaram, uma vez mais, u-ma-vez-ma-is, é impossível não o dizer sem alguma turvação, o nosso país. E nem a fantástica vitória de Portugal no 21º campeonato Mundial de Futebol FIFA realizado na Rússia, dia 15 de julho passado, com quatro golos marcados por Ronaldo na final à Argentina, que nos envaideceu a todos, conseguiu afastar-nos o pensamento da tragédia uma vez mais ocorrida, u-ma-vez-ma-is.

A recorrência deste flagelo dos fogos provoca-me um sentimento de ambivalência. Por um lado, desde que tenho vida consciente, há mais de quatro décadas, portanto, sou testemunha desta calamidade nacional. Sempre vi, a caminho da casa dos meus avós maternos e paternos, no centro e no norte do país, onde passava as férias grandes, enormes zonas florestais por esta altura reduzidas a cinzas.

Aprendi esse monótono padrão e interiorizei-o como se fosse um observador metódico de uma regularidade natural, produzida por uma inelutável força causal. Por outro lado, a familiaridade profissional com a Epistemologia tornou-me bem ciente de que este fenómeno está sobretudo enraizado no comportamento humano, sendo muito idêntico em essência, ainda que não em aparência, ao dos sinistros rodoviários, dos homicídios, dos roubos ou dos suicídios.

Sei que dependem, em boa medida, da nossa vontade. No entanto, desafiando a compreensão, repetem-se como se fossem engelianas “leis de ferro” nos assuntos humanos. Sei, por isso, sempre com um nó na garganta e suma perplexidade, que no primeiro dia de cada ano civil as taxas desses indicadores sociais negativos se manterão implacavelmente constantes no final do mesmo. E por isso sei também, quando cada Verão acaba, que no seguinte teremos mais ou menos o mesmo número de hectares de floresta ardidos, de habitações consumidas pelas chamas, de animais e pessoas mortas.

E porque o sei? Porque as insensatas queimadas sempre regressam. Porque o auxilium in periculo permanecerá voluntário. Porque a terra lusa continuará bem coberta de eucalyptus, passe a redundância. Porque o minifúndio a norte do Lis reincidirá no desleixo. Porque a indústria da celulose quererá manter fáceis os ganhos. Porque a proteção civil não terá o comando militar. Porque CL-215 será ainda sinónimo de fabuloso negócio.

Ouvimos, como no ano passado, como nos muitos outros anos passados, o Presidente da República, em tom veemente, asseverar que esta catástrofe não pode voltar a acontecer, prontamente seguido pelo chefe do governo e seus ministros a fazerem, em coro, promessas, projetos, planos de radicais mudanças na lei, no zelo, na prevenção. E dirigentes de todos os quadrantes partidários logo se indignaram na comunicação social indignada com tudo isso.

E bispos muito católicos suspenderam o seu costumeiro mutismo para virem apregoar que urge que alguém faça algo e que, enquanto isso não acontece, se reze ao Altíssimo, com devoção e fervor. Estranho apelo! Então não é Ele o suposto criador de tudo: da Natureza, do bem e do mal e, por consequência, também dos incêndios. Rezar!? Arrisco dizer que o eterno retorno dos infernais fogos mostra que não está a produzir resultado. Não, este assunto não diz respeito ao divino, mas ao humano.

Pomona aí está, com as primeiras chuvas, prelúdio da hibernal estação que provocará o oblívio do saturno período. E brutais inundações virão, em substituição das infernais labaredas.

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