Quando foi publicado o código penal de 1886 as mulheres eram...

Ideias

autor

Joaquim Gomes

contactarnum. de artigos 160

O acórdão judicial de um caso de violência, perpetrado por dois homens contra uma mulher acusada de adultério, levou à estupefação generalizada aqui e além- fronteira. A sentença proferida por um juiz do Tribunal da Relação do Porto, fundamentou-se com citações da Bíblia, do Código Penal Português de 1886 e até a alusão a tradições de civilizações totalmente opostas à da Europa ocidental, da qual Portugal faz parte.
É certo que este caso fez-nos recusar ao passado e quero aqui apenas recordar como eram vistas as mulheres na segunda metade do século XIX, a época de Camilo Castelo Branco e do seu “Amor de Perdição”.
Quando foi publicado o Código Penal de 1886, havia já na sociedade portuguesa, e europeia, uma inclinação clara para um maior respeito pelas mulheres. Em Espanha, por exemplo, dizia-se que a mulher loira tinha uma decidida afeição pela música; a morena era apaixonada pelos bailes; a mulher alta, procurava os passeios; a baixa, procurava o teatro e todos os lugares concorridos. A mulher de 15 anos, que tivesse olhos negros, sonhava com um rapaz de bigode loiro que tinha visto algures num lugar que não se recordava; a mulher de olhos azuis, decidia-se pela raça meridional e pelas flores; a mulher que se pintava, admitia o primeiro marido que lhe dessem; a mulher desenvolta, abria os braços ao primeiro noivo que chegasse; as mulheres virgens, de pouco trato social, preferiam o cãozinho ao namorado e algumas acreditavam ser mais útil um xaile de manilha do que um marido!
Quando foi publicado o Código Penal de 1886, o temperamento das mulheres era aferido através do vestido que usavam. Assim, as mulheres que usassem um vestido apertado eram avarentas; as que usassem um vestido largo eram pródigas; as que usassem um vestido curto eram apaixonadas pelos bailes; as que usassem um vestido comprido e asseado eram ricas e elegantes; as que usassem vestido curto e sujo eram desmazeladas; as de vestido despregado eram preguiçosas; as que usassem um vestido sempre novo eram temíveis; as que usassem um vestido sempre velho renunciavam ao amor; as que usassem vestidos de cores claras eram muito alegres; as que usassem cores escuras eram prudentes; as que usassem vestido afogado eram modestas; as que usassem vestido muito decotado eram formosas; as mulheres que levantassem o vestido, quando chovia, tinham boas pernas e pés bonitos!
Quando foi publicado o Código Penal de 1886, dizia-se que a mulher solteira era uma flor; a mulher casada uma semente; a mulher viúva uma planta abandonada; a irmã de caridade uma planta medicinal; a solteirona uma enredadora!
Quando foi publicado o Código Penal de 1886, dizia-se que a mulher solteira era um problema; a casada, um prémio; como irmã, uma causa; como mãe, um anjo; como amante, um luxo; como sogra, um demónio e como madrasta, um inferno!
Quando foi publicado o Código Penal de 1886, dizia-se que a mulher casta, era um altar; a mulher pura, uma imagem; a mulher vaidosa, um engano; a mulher humilde, um achado; a mulher ciumenta, um cilício; a mulher presumida, era um perigo; a mulher modesta, era uma sorte; a mulher económica, era uma fortuna; a mulher gastadora, era o maior castigo que Deus podia dar a um homem!
Quando foi publicado o Código Penal de 1886, eram frequentemente recordados pensamentos de vários autores sobre as mulheres. Assim, dizia-se que para certas mulheres havia uma juventude eterna, a que se chamava graça; não havia dor alguma que a mulher não a soubesse adoçar; não era claro que as mulheres amassem mais que os homens, mas sabiam era amar melhor; o coração de uma mulher era como um instrumento, pois necessitava que o tocassem; o sol e a mulher parece que repartiram entre si o império do mundo, pois um dá os dias e o outro embeleza-o; o coração é onde Deus colocou o génio das mulheres, porque todas as obras desse génio eram obras de amor; uma mulher insensível era um erro da natureza; o instinto da mulher equivalia à perspicácia dos grandes homens; uma mulher boa nunca era feia; o coração de uma mãe era um abismo em cujo fundo havia sempre um perdão; o primeiro pensamento de uma mulher era quase sempre dizer sim; o seu primeiro movimento dizia sempre não; uma mulher bonita agradava aos olhos; uma mulher boa agradava ao coração; a primeira era uma jóia e a segunda um tesouro!
Na segunda metade do século XIX, a própria justiça não era necessariamente contra a mulher. Basta recordar a curiosa sentença que foi proferida por um Tribunal chinês, em Amoy, contra um comerciante que tinha maltratado a sua mulher. O juiz condenou o comerciante a uma simples mas eficaz medida: ficar toda a vida sem dormir! O homem ainda aguentou 19 dias acordado. Ao 18.º dia, o comerciante encontrava-se num estado de saúde tão horrível, que pediu aos guardas que o matassem. Ao 19.º dia morreu!

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Ideias

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia