OS Sãobentinhos

Ideias

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José Manuel Cruz

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Estou em prantos: o Costa e o Coelho são modelos da mesma agência de eventos. Desfilam, posam e rodopiam, um em decalque do outro, repetindo coreografias repisadas em academia de fim de estação. Distinguem-se, porventura, pelo biquinho, pelo arremedo de sorriso, naquele instante suspenso em que fitam o painel primodivisionário de operadores de imagem, a plateia de notáveis e de negociantes de gabarito. Talvez não sejamos capazes de gerar melhor do que isto.
Portugal ardeu. Vidas se despedaçaram, vasta centena de justos passou os portais do Inferno, por engano, por pecado alheio. E, no meio deste drama pungente, há quem pense em conspiração: Portugal em chamas para que o governo de Costa se queime, se esfume, vire cinza. Ah, ironia: o desacerto, o desgoverno, remido sem penitência, em confessionários de esquerda beata.
Longe de mim o louvor de galinha encristada, o aplauso dos cacarejos de regente de quintal, dos quiqueriquis de pintos calçudos, que à exaustão provado o apego utilitário dos espécimes plumosos aos fartos do celeiro. Quando nos cansaremos de galináceos que esbulham a maçaroca, grão a grão?
Quantos são os políticos, esses homens e mulheres que estão na vida pública, supostamente ao serviço do País? Serão um milhar de bicos? Dois? Três? E levam-nos de pandeireta? Mas que crédulos nós somos! E não haver gripe aviária que lhes pegue.
O grandioso «D» do desenvolvimento. Anda, Portugal progressista, puxa galões. Apresentai armas, obreiros do avanço. Engalanai-vos, vós que nos guiais, para que nós, humildes, boçais, vos aplaudamos com coreana cegueira. Mereceis hurras. Abril que se fez para resgatar a mais velha nação da Europa às estrumeiras do marasmo, às dores da emigração repulsiva. Sim? Quarenta já lá vão, e que trôpego me pareceu o mea culpa, o contricto pedido de desculpa do arauto da Liberdade. Ouvimos Manuel Alegre dizer que Lisboa tinha passado por cima do DESENVOLVIMENTO DO INTERIOR. Vai com maiúscula gritada. Que andou ele a fazer por S. Bento, até ao último, glorioso rompante? Lavou a consciência, o senhor, e parte significativa de um país em minúscula aplaudiu-lhe o gesto. Como? Tem lá perdão a incúria!
Ninguém é obrigado a fazer mais do que aquilo que sabe, a ninguém se reprova que procure o paraíso à boleia dos maus jeitos que tem. Ciências e habilidades amplificadas de doutores e engenheiros pela metade, ou nem tanto. Esbarramos em desilusões, como atleta em baixa de forma arrebenta com as canelas numa paródia dos 110 metros barreiras. Aspiramos ao título olímpico «porque sim»; acreditamos piedosamente numa nova apanha de políticos «porque depurada, a safra recente, das asneiras clamorosas da precedente». Erros nossos, má fortuna… E mais que não tomo de empréstimo ao Camões. Saem os maçaricos do forninho onde alourou a peluda.
Pobre povo que ajoelha e baixa pestana diante da estirpe de santos que ao presente viceja, como os avós o fizeram, outrora, reverentes, à passagem de andor alombado por oito e do pálio glorificante da sagrada custódia. Persignações e «ora pro nobis». Portugal é Lisboa, e o resto é paisagem tisnada de carvoeiro. «Ardeu o pinhal de D. Dinis» lacrimeja, em assomo poético, o trovador. Ora repita, sff! Pronto, concedo: homem grande chora pinhal de rei, homem pequeno chora pinheirito de plebeu! Questão de escala.
Ocorre-me que falta, na obra emblemática da Fundação Bissaya Barreto, um S. Bento dos Pequenitos. Assim como assim, ficavam bem acomodados, os políticos que vamos tendo. Ficavam à escala.

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